Sobre Severina Branca
A poetisa meretriz
Nos idos anos 70, quando as v�timas da prostitui��o geralmente eram mulheres muito pobres e de pouca beleza, ou nenhuma, que vendiam os corpos para sobreviver ou alimentar os filhos de pais que n�o assumiam, e que as mesmas n�o tinham amparo nenhum da lei ou do poder governamental, Severina Branca, uma das pioneiras na prostitui��o em S�o Jos� do Egito (Pe), ao passar pela barbearia de Z� Rocha, encontrou dois poetas repentistas improvisando versos numa cantoria de p� de parede, Severina Branca parou e ficou encostada ouvindo os vates na peleja da viola. No intervalo de um bai�o de viola pra outro algu�m olhou pra Severina Branca e disse: "Severina diga um mote pra os poetas improvisarem". Severina Branca pensou um instante e disse um monte que hoje est� imortalizado dentro do universo da poesia nordestina. O mote foi "O silencio da noite � quem tem sido/Testemunha das minhas amarguras". Os poetas improvisaram belos versos. Quando terminou a cantoria, Severina Branca se dirigiu para seu pequeno quarto/casa e fez algumas estrofes, que infelizmente eu n�o as tenho. No transcorrer dos anos muita gente fez decass�labos em cima dos motes de Severina Branca. Hoje depois de muitos anos foi que a inspira��o veio a tona e eu fiz alguns decass�labos usando o mote da poetisa marginal. Hoje a poetisa Severina Branca reside num povoado distrito de S�o Jos� do Egito chamado Mundo Novo, que fica no limite com a Para�ba, tendo Ouro Velho no Cariri paraibano, como vizinho.
Hoje ela perambula por algumas cidades do Cariri e do Paj�u, como um fantasma de outro mundo. Corpo esquel�tico e �s vezes seminua. Quando a mente estar com um pouco de lucidez, Severina declamar seus versos.
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras
I
Mergulhei nos abismos infernais
Que nem Dante deu passos com Virgilio
Na loucura de achar algum aux�lio
Eu sofri nos sub�rbios marginais.
Vi o ocaso nas horas matinais
Entre os bra�os de estranhas criaturas
Os contatos fortuitos �s escuras
Ecoavam com o sopro dum gemido
O sil�ncio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
II
Troquei beijos com bocas amargosas
Sob as luzes dum velho candeeiro
E dos corpos senti estranho cheiro
Entre as sombras de noites vaporosas.
Hoje as marcas das dores horrorosas
S�o sinais dos momentos de loucuras
Machucando minh�alma com torturas
E deixando o meu ser enlouquecido
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
III
Inda sinto o tumulto das m�os sujas
Afagando o meu corpo pecador
Ao inv�s do prazer sentia dor
E no peito uma voz dizendo fujas.
Entre as brechas das telhas as corujas
Agouravam as minhas desventuras
Eu gritava pra Deus l� nas alturas
Leve logo este ser que � t�o sofrido
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
IV
Muitos homens chegavam embriagados
Dando chutes na porta como loucos
Os gentis para mim foram t�o poucos
Eram seres tristonhos, reservados.
Eu perdi a no��o dos meus pecados
Pois a fome causava-me tonturas
Numa vida com facas de agruras
Que cortavam meu peito ressequido
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
V
Sobre a cama meu corpo se tremia
De fraqueza, de fome e de sede;
Noutro canto meu filho numa rede
Quem o olhasse pensava que morria.
Pois a fome causava-lhe agonia
Lhe roubando fagulhas de venturas
Eram cenas cru�is de vidas duras
Condenadas num mundo corrompido
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
VI
Hoje eu vivo jogada ao relento
Sem um teto sequer para dormir
O passado, o presente e o porvir,
Me jogaram no duro calcamento
Condenada num frio isolamento
O meu corpo s� tem as ossaturas
Pra os insetos fazerem aventuras
Ferroando o que j� foi consumido
O silencio da noite � quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.
Sobre Z� Marcolino
Embora este Blog tenha sido constru�do para divulgar alguns t�picos referentes � cultura do Paje�, n�o poderia esquecer jamais a import�ncia cultural do que foi o poeta/compositor e cantador do Cariri paraibano, Jos� Marcolino. O mestre de Sum� foi uma mistura de paraibano com pernambucano, pois o mesmo viveu sempre de um Estado para outro. Isto �, de Sum�, passando por S�o Jos� do Egito, at� Serra Talhada, onde constituiu sua fam�lia. Isso fez com que a sua m�sica sempre expressasse a vida do povo de ambos os Estados.
E
u tive a felicidade de ter convivido com ele durante a minha adolesc�ncia em S�o Jos� do Egito. Sempre muito cort�s, voz grave, express�o fision�mica m�xima do caboclo nordestino, Marcolino marcou minha vida nos primeiros tempos da minha constru��o de identidade cultural. O bar de Jo�o Macambira (atr�s da minha casa), era o reduto dos bo�mios, poetas, intelectuais e cantores que circulavam pela regi�o do Cariri e do Paje�. Z� Marcolino sempre foi uma presen�a constante. Quando tinha algu�m pra acompanh�-lo no viol�o, Marcolino nos presenteava com suas can��es belas, e se n�o tinha ningu�m com um viol�o, ele cantava, tendo como instrumento uma caixa de f�sforos. O meu irm�o Betinho, que faleceu prematuramente vitimado por um acidente automobil�stico como Marcolino, acompanhou com seu viol�o muitas vezes o poeta cantador nos saudosos tempos de boemia cultural do bar de Jo�o Macambira. O interessante era que o bar n�o tinha sanit�rio, e a gente usava o l� de casa entrando pela porta do muro. Quando a grana s� dava pra comprar a cacha�a, a gente gritava da porta do muro pra minha m�e pedindo que ele enviasse o almo�o pra ser o nosso tira-gosto.
Hoje, aqui em Natal, �s margens do Potengi, ouvindo a m�sica de Marcolino, uma saudade daqueles tempos e do poeta bateu em mim de maneira profunda, arrancando da minha alma um singelo poema em homenagem ao poeta paraibano/pernambucano. As palavras que est�o entre aspas s�o t�tulos de algumas m�sicas de sua autoria. O compositor potiguar Galv�o Filho, um dos meus parceiros musicou o poema com duas melodias que ficaram bel�ssimas. Uma � um xote e a outra � um bai�o.
Saudade de Marcolino
Poema musicado por Galv�o Filho
Marcolino, poeta cantador,
A �Cacimba� secou de tanto pranto
O �Car�o� n�o escuta o teu canto
�Sabi� padeceu de tanta dor.
O �Ci�me da Lua� se acabou
Hoje vives morando perto dela
Desenhando teu canto numa tela
Seduzindo-a com tua serenata
Despertando seu riso cor de prata
Num desenho de linda aquarela.
II
O �Serrote Agudo� estar tristonho
O "Fura-Barreira j� n�o tem mais casa
"Maribondo" j� bateu a sua asa
O "Sert�o de A�o" perdeu seu sonho
S� os vates de cima est�o risonhos
O teu canto � a �Saudade Imprudente�
Que machuca o sert�o que h� na gente
Como o pranto na �M�goa de um Vaqueiro�
Que tristonho, num banco do terreiro,
Faz aboios saudosos e dolente.
III
Oh! Poeta �Caboclo Nordestino�
As caboclas �Cintura de Abelha�
Soltam prantos em forma de centelha
Com saudades do canto campesino.
A �Cantiga do Vem-Vem� pequenino
Sobre os galhos da �Flor do cCumaru�
Faz sentir Cariri e o Paje�
A saudade das noites de S�o Jo�o
Ou as tardes tristonhas do sert�o
Entre os cantos dolentes do nambu.
IV
Hoje j� n�o se faz a mesma dan�a
�Nicodemos� partiu pra outros cantos
N�o se encontram mais os mesmos recantos
Duma �Sala de Reboco� com pujan�a,
A saudade dos �tempos de crian�a�
A �Rolinha� com passos delicados
Um poeta con sonhos encantados
Numa "Estrada", pisando no destino,
Pra partir nos deixando um lindo hino
Atrav�s dos seus cantos coroados.
O cavalo veloz da mocidade
Fica manco na estrada da velhice
I
Poema musicado por Galv�o Filho
Fiz galopes nas trilhas da inoc�ncia
Num cavalo chamado fantasia,
Desbravando os caminhos da alegria
Entre os vales floridos da exist�ncia.
Os seus cascos velozes por ess�ncia
Davam saltos no ch�o da meninice;
O camp�nio do te
mpo olhou e disse,
Que o viver passa
com fugacidade;
O cavalo veloz da mocidade
Fica manco na estrada da velhice.
II
Cavalguei na montanha do passado
No veloz alaz�o da adolesc�ncia,
Onde a vida � fugaz por excel�ncia
Igualmente um ocaso avermelhado.
O pequeno animal ficou cansado
Procurando o lugar da criancice;
Mas o tempo arrancou sua crendice
Perfurando com espinhos da idade,
O cavalo veloz da mocidade
Fica manco na estrada da velhice.
III
Eu passei na plan�cie do meu sonho
No corcel da ef�mera inf�ncia
Planejando o viver com toler�ncia
Sobre a trilha feliz dum ser risonho.
Veio o tempo com seu olhar tristonho
Me dizendo que nunca mais sorrisse
Que eu pegasse o cavalo e partisse
Sobre as pedras tristonhas da idade
O cavalo veloz da mocidade
Fica manco na estrada da velhice.
O po�tico mundo buc�lico de Canc�o
Mergulhar no universo da poesia de Canc�o, nos leva a um mundo de sonho e fantasia, o qual nos faz crer que a divina provid�ncia fez todos os esfor�os poss�veis pra realizar atrav�s da sua cria��o magistral, a mais nobre prova da beleza espiritual, expressada atrav�s da grandeza buc�lica de uma alma que sentiu e externou a natureza sertaneja da forma mais bela e encantadora. Filho do Paje� pernambucano, l�rio sublime da poesia de S�o Jos� do Egito, o poeta tinha uma sensibilidade e uma capacidade de pintar a natureza atrav�s das palavras, que nenhum pintor por mais capacitado que seja conseguiu.
O artista pl�stico mostra a natureza de forma est�tica. Canc�o atrav�s da poesia mostrou a natureza em movimento. Ao ler seus poemas, a nossa alma assiste os pingos dos orvalhos cristalinos escorrendo nos corpos nus das flores, contempla os c�rregos borbulhando no cora��o da mata, escuta a voz tristonha de um sabi� na solid�o, desperta com um pequeno rouxinol nas brechas do telhado, contempla as auroras e os arreb�is numa muta��o de cores, sente o delicioso cheiro do mel sendo fabricado na moagem de um engenho, se encanta vendo os pirilampos acendendo e apagando suas luzes na escurid�o noturna, v� os campos floridos, cheios de borboletas e colibris dan�ando numa festa matutina, e se assusta com as tempestades e enchentes no rio da aldeia egipciense.
Ao debru�asse na poesia do poeta p�ssaro, um conforto de delicadezas atinge a nossa alma, como o bater das asas de uma borboleta sobre as flores de um pl�cido jasmim. Cada pingo de orvalho que escorre atrav�s dos seus poemas buc�licos, banha nosso esp�rito de afetos, numa cachoeira de rimas e ritmos, com palavras belas, que embevecem e transbordam a lagoa dos nossos sentimentos. A sua poesia faz as estrelas ficarem bem pr�ximas da gente, nas quais, os dedos da nossa alma podem toc�-las e senti-las, recebendo os fulgores po�ticos, que clareiam a imensid�o dos sentidos. Nos poemas de Canc�o tudo se torna poss�vel. O �cisne�, p�ssaro de outras regi�es v�m nadar no rio da sua aldeia; a �maresia indiana�, traz seu cheiro pra perfumar o corpo de uma professora amiga; a pantera solta rugidos nas grutas do seu pequeno lugarejo; algumas flores de outras regi�es embelezam as campinas do Paje�; enfim, o poeta transporta pra sua aldeia animais e plantas de outras regi�es, construindo um inusitado nicho ecol�gico.
Canc�o conseguiu atrav�s da poesia campestre mostrar a caatinga sertaneja na explos�o invernal dos tempos de chuvas da forma mais encantadora poss�vel. Seu poema �Depois da Chuva�, desenha a beleza da flora e fauna do sert�o nordestino de uma forma t�o sublime e bela, que at� parece que todos os poros do seu corpo tinham um olhar de sensibilidade atento para aquela �tarde de abril�, quando o rouxinol, o sabi�, os colibris, os regatos, as borboletas, as abelhas, o sol e as flores, formaram um mundo de encantos buc�licos, ocultados na sua alma e revelados atrav�s de um poema cl�ssico, digno da mais fiel enciclop�dia universal da poesia.
O poeta/verde conseguiu com profunda sensibilidade e dom�nio das palavras aproximar o homem da cria��o divina. Cada verso, que ele fez sobre a natureza, � de uma perfei��o t�o impressionante, que uma enxurrada de emo��es inunda cada lagoa do nosso cora��o. Mergulhar no mundo do aedo buc�lico, saborear seus poemas, sonetos e outras formas liter�rias nos torna o mais humano dos humanos; nos faz crer, que o mundo visto por ele e expressado pela sua inspira��o � o lugar do sonho e da fantasia. Canc�o nos proporcionou a viajar nas asas dos colibris, dando beijos nas flores das campinas; nos fez sentar nas estrelas; nos fez sonhar com a liberdade atrav�s de um sabi� na solid�o de uma gaiola; nos levou aos riachos cristalinos da sua aldeia; nos fez verter prantos pela rolinha que teve o �Ninho Roubado�; nos causou uma reflex�o profunda sobre a morte, na solid�o das �Seis horas no Cemit�rio�; nos mostrou os detalhes da casa sertaneja, que abrigava um pobre �brio solit�rio; nos transportou pra o mundo dos abor�gines do Paje�, com seus paj�s, feiticeiros, arcos, flechas e tacapes; enfim, a sua poesia � uma viagem de del�rios, devaneios e sensa��es atrav�s das belezas da natureza e das profundezas da alma humana.
Sentir os seus encantos po�ticos, causa ao esp�rito humano uma esp�cie de do�ura e ternura angelical. Cresce dentro da gente uma vontade inexor�vel de contemplar a vida, e deixa a nossa exist�ncia enternecida.
Mas, como todos os poetas, Canc�o sofreu as dores da solid�o. No poema �Lamentos ao p� do tumulo�, ele externa todo seu �dio a terra que tanto decantou, por ela ter levado a mulher amada.
Acredito que o poeta do �Paje� das flores� deve est� nesse instante no para�so celestial da poesia, declamando seus poemas, acendendo estrelas e jogando orvalhos nas madrugadas celestiais.
Se os gregos de outrora tivessem conhecido a poesia de Canc�o, com certeza o teriam posto no trono de Zeus e colocaria na sua cabe�a divina a coroa de um Deus/Poeta.
Hoje, depois de v�rios mil�nio p�s era grega, e depois de algumas d�cadas da partida do vate da natureza, pra morar junto aos deuses das artes no Olimpio celestial, o poeta egipciense � extremamente necess�rio pra esse mundo louco, de tantos sentimentos vazios e mec�nicos.
Se um dia Deus resolver mandar um emiss�rio a terra, acredito que ser� o poeta campestre que vir�, trazendo o mesmo esp�rito humano, a mesma inoc�ncia e simplicidade, a grande sensibilidade po�tica e os ensinamentos de respeito, amizade, fraternidade e solidariedade, que ele tanto mostrou atrav�s dos seus versos.
Apesar da sua poesia n�o denunciar de forma constante as opress�es sociais sofridas pelos afortunados e desamparados do poder governamental, Canc�o seguiu o mesmo caminho na constru��o do homem a partir da natureza, como fez o grande fil�sofo e educador Jean-Jacques Rousseau, no seu cl�ssico e po�tico livro, �Em�lio ou da Educa��o�.
Mesmo n�o relatando as agress�es do homem � natureza, Canc�o foi e � uma esp�cie de educador ambiental. A poesia por si pr�pria educa o homem, e quem l� os versos campesinos do poeta pajeusense, enxerga a natureza de maneira interativa, respeitando-a com carinho e admira��o.
Apesar do pouco estudo acad�mico, tendo s� cursado o prim�rio da �poca, Canc�o foi um ex�mio autoditada. Ele leu os grandes poetas cl�ssicos, como Casimiro de Abreu, Gon�alves Dias, Castro Alves, dentre outros. Mas, acima de tudo ele teve um estilo liter�rio pr�prio, embora tenha escrito alguns sonetos. O mais impressionante era a grandeza da sua verve. Com poucos temas ele criava um mundo de poesia. Bastava uma cena fugaz de alguma manifesta��o da natureza, que ele a eternizava de maneira impressionante. N�o foi um poeta da viola como a maioria dos poetas contempor�neos, mas glosava de improviso entre os vates amigos com a mesma capacidade dos grandes menestr�is do repente.
Seu nome de batismo era Jo�o Batista de Siqueira, mas n�o poderia existir um apelido mais digno do que Canc�o. P�ssaro de cor preta e branca, que habita as altas arvores da caatinga sertaneja, e que encanta atrav�s de um canto agudo e melodioso.
Todos os amantes da poesia deveriam agradecer ao grande criador do universo, por ter presenteado sobre a forma humana, a prova mais fiel da sua exist�ncia enquanto arquiteto das coisas belas que comp�em o mundo dos humanos. Canc�o, pureza da alma, exemplo de humildade, encantador que usou a poesia pra elevar nosso esp�rito, pincel vern�culo dos poemas campesinos, voz singela dos humildes, plantador de sonhos e fantasias, obrigado por nos proporcionar um mundo belo, cheio de auroras e esperan�as, nesses tempos de tantos
ocasos e incertezas.
Depois da Chuva
J�o Batista de Siqueira (Canc�o
)
I
Era uma tarde de abril
A luz do sol se escoava,
Um tra�o da cor de anil
O c�u deserto mostrava.
Num lago triste e sereno
Nadava um cisne pequeno
Eri�ando as alvas plumas;
As derradeiras neblinas
Faziam lindas ondinas,
Por entre as brancas espumas.
II
Um sabi� pesaroso
Nos galhos em que nasceu,
Cantava triste e choroso
As m�goas do peito seu.
O sol al�m se deitava
A sua luz se esvasava
Pela ramagem da horta;
A brisa em leves ru�dos
Levava os ternos gemidos,
Da tarde j� quase morta.
III
A �gua branda descia
Pelo pequeno gramado;
A relva fresca e macia
Era um tapete rendado.
Se ouvia l� na colina
No cora��o da campina,
Solu�ar uma cascata;
E o sol com seus lampejos
Dava seus derradeiros beijos
No rosto verde da mata.
IV
As auras rumorejavam
Com lentid�o e leveza;
Os regatos retratavam
Um lindo c�u azul de turquesa.
Os orvalhos cristalinos
Se desprendiam divinos
Da copa dos arvoredos.
As carna�bas rendadas,
Como com as m�os espalmadas,
O sol brincava em seus dedos.
V
Voavam pelos verdores
Lindos colibris dourados,
Bebendo o r�cio das flores
Dos jiquiris borrifados.
No pomar um rouxinol
Contemplava o arrebol,
Numa profunda tristeza.
Um tra�o d�bil de luz
Rasgava os panos azuis
Do corpo da natureza .
VI
Depois os ventos mansinhos
Sopravam no campo vago,
Fazendo alguns burburinhos
Na face lisa do lago;
As abelhas pregui�osas
Se escondiam nas rosas,
Que a natureza burila;
E o cisne de brancas penas
Cortava as �guas serenas
Da superf�cie tranq�ila.
Ser t�o Sert�o
I
No meu peito, palpita um ser sert�o,
De invernadas ou secas causticantes,
Mostra os campos sutis e fulgurantes
E desertos que causam assombra��o.
Nele pulsa o crep�sculo dum ver�o,
Ou os fulgores das horas matinais;
Mostra os vales nos tempos invernais,
E revela os cen�rios de dois mundos,
Onde vivem os dois seres profundos,
Que t�m secas ou grandes temporais.
II
No meu ser, o sert�o vive presente,
Atrav�s dos costumes do seu povo,
Que resiste ao banal chamado novo
Parecendo um umbuzeiro imponente.
Nele pulsa as violas do repente
Atrav�s do improviso num arpejo;
Igualmente um rel�mpago em lampejo
Numa chuva de versos que me acalma,
No profundo oculto da minha alma
Onde vive um camp�nio sertanejo.
III
No sert�o da minha alma resplandece
A florada de um p� de umbuzeiro;
As sementes sutis do marmeleiro
Que a rolinha se alimenta como prece.
O meu ser t�o sert�o nunca fenece
Os jardins encantados da esperan�a;
Nele existe a certeza da bonan�a
Dum ro�ado com verdes p�s de milho,
Onde o pai tem certeza que seu filho
N�o ir� mais sofrer desesperan�a.
IV
Quem caminha na trilha do meu ser
Nela encontra o xaxado e o bai�o,
Na sanfona e na voz de Gonzag�o
Onde o canto � a forma de viver.
Um vaqueiro ab�ia com prazer
No oculto curral da exist�ncia,
De um ser sertanejo por ess�ncia
Que carrega no peito a sua terra
Desde o vale, a caatinga e a serra,
Dando passos fieis da consci�ncia.
V
No meu peito se encontra a ladainha
Das beatas rezando em prociss�o;
Mostra a f� do camp�nio do sert�o
Enfrentando um viver que lhe espinha.
Canta dentro de mim uma rolinha
Num crep�sculo da tarde sertaneja;
Tem o som do caboclo na peleja
Conduzindo a boiada em passo lento,
Aboiando do peito um sentimento
Sob o sol causticante que dardeja.
VI
Dentro de mim ecoa um dialeto
De palavras do homem campon�s,
Que n�o fala o urbano portugu�s;
O dizer e entender pra ele � correto.
Na minh�alma carrego humilde teto
Das casinhas de taipa do sert�o,
Que s� tem na parede a devo��o
Sobre a forma singela dum retrato,
De Jesus padecendo no maltrato
Como a forma crist� da reden��o.
VII
O meu sangue possui o puro cheiro
Das ess�ncias da flor duma jurema
O cantar da afinada seriema
Sob a sombra dum verde juazeiro.
Eu carrego na minha�alma um vaqueiro
Nas corridas das grandes vaquejadas,
Argolinhas, S�o Jo�o e cavalhadas,
Cantorias, folguedo, aparta��o,
A novena, promessa e prociss�o,
Tradi��es, que est�o enraizadas.
VIII
O sert�o n�o � s� parte da terra
Ele estar no profundo do meu ser
Pra senti-lo � preciso compreender
Desde o vale, a caatinga e a serra.
A grandeza de s�-lo nunca encerra;
Eu o levo com risos ou com prantos,
Atrav�s dos poemas ou dos cantos
Como s�mbolo da minha identidade,
Onde a flor da cultura � a verdade
Exalando os costumes com encantos.
Canto Rouxinol
I
Sinto um canto rouxinol
Na manh� dos meus sentidos,
Com os tons enternecidos,
Num acorde em si bemol.
Na aurora, ele � um sol,
Entre as brechas do telhado,
Entoando um gorjeado,
Onde a luz do seu cantar,
Faz minha alma despertar
Com seu canto delicado.
II
O lindo p�saro silvestre
Que ecoa na minha mata,
Mostra o canto em sonata
Que alcan�a todo alpestre.
O meu sentido campestre
Veste a roupa da campina,
Onde a �gua cristalina
Acompanha o passarinho,
Com acordes de carinho,
Tocando a escala divina.
III
Nas janelas da minh�alma
Sempre que o dia amanhece,
O lindo p�ssaro aparece,
Com o canto que me acalma.
Sua voz t�o doce e calma,
Enternece o ambiente,
Que meu ser fica contente
Nas plumas da sinfonia,
Onde o som da melodia
� leve como a corrente.
IV
Ele mostra o meu segredo
Na copa verde dos sonhos,
Com lindos cantos risonhos
Nos galhos dum arvoredo.
Voa nos campos sem medo
Dos abismos da maldade;
Bates as asas da verdade,
Faz pouso em mil cora��es,
T�m beijos pra as comunh�es
E ninho para a amizade.
Odiss�ia Sertaneja
I
Naveguei sobre os mares do sert�o
Enfrentando as procelas do viver,
Subi ondas dif�ceis de vencer
Fui envolto na f�ria de um tuf�o.
Conduzi minha forte embarca��o
Em gargantas de rochas perigosas,
E passei por cavernas tenebrosas
Ocultadas nas brechas dum lajedo
Escondendo do mundo seu segredo,
Entre nuvens de formas vaporosas.
II
Abordei sobre as ilhas sertanejas
Pra um descanso na longa odiss�ia,
E escutei os sutis sons da id�ia
Num confronto de vates na peleja.
Eram deuses em frente da bandeja
Com violas fazendo cantoria,
Num or�culo coberto de poesia,
Que guiava com s�bio mandamento
O meu barco no mar do sentimento,
Sobre as �guas da longa travessia.
III
Encontrei sobre os mares sertanejos
A coragem dos bravos cavaleiros,
Penetrando em fechados marmeleiros
Pra jogar os seus la�os com ensejos.
Eram homens-her�is fazendo arpejos,
Semideuses com seu gib�o de couro,
Que enfrentavam a f�ria de um touro
Sem temer grandes chifres amolados,
Dando saltos nas cercas dos ro�ados
Que seus cascos brilhavam como ouro.
IV
Enfrentei nas cavernas montanhosas
Grandes monstros de uma s� vez,
Com espada, coragem e altivez,
Minhas lutas foram vitoriosas.
Eu olhei das escarpas pedregosas
O sert�o com seus grandes oceanos;
Levantei minha �ncora e fiz planos
Pra cumprir as promessas do destino
E voltar pro canto em que fui menino,
Derrotando os terr�veis desenganos.
V
Na jornada enfrentei grandes serpentes
Com a for�a e coragem de um Sans�o,
Dando saltos, de espada sobre a m�o,
Enfiando-a nas brechas dos seus dentes.
Eu lutei contras as feras mais valentes
Sem jamais recuar frente aos perigos;
Nem temer de alguns deuses os castigos,
Que com f�ria fechava os caminhos
Me jogando em confusos remoinhos
Tendo os ventos somente como abrigos.
VI
Cavalguei sobre um l�pido corcel
Nas caatingas fechadas do sert�o
Com perneira, espora e um gib�o,
E brilhantes estrelas no chap�u.
Vi as nuvens correndo sob o c�u
Num crep�sculo de cor avermelhada,
Parecendo uma r�pida boiada
Procurando um curral na imensid�o,
Pra deitar-se na cama da amplid�o
E acordar com o vaqueiro da alvorada.
VII
Mergulhei num inferno tenebroso
Que nem Dante deu passos com Virgilio,
Vi pedintes suplicando um aux�lio
Num lamento cruel e lastimoso.
Eu vi que nenhum era criminoso;
Eram vitimas no mar do abandono,
De governo que tem homens no trono,
Dando acoites nas costas dos famintos
Transformando o viver em absintos,
Onde a vida � um fel de desengano .
VIII
Foi recebido por reis e rainhas
No imp�rio do mundo sertanejo,
Que divide a comida sem ter pejo
Sob o teto das l�nguidas casinhas.
Vi meninas cobertas de florinhas
Parecendo encantadas princesas,
Que exalava as mais puras gentilezas
Num reinado com flores de bondade,
Onde a lei � a sutil fraternidade
Praticada com mil delicadezas.
IX
Eu vi ninfas caboclas do sert�o
Num ro�ado plantando lindos sonhos,
Entoando os sutis cantos risonhos
Numa l�rica e pl�cida can��o.
Tinha um l�rio enfeitando cada m�o,
E nos l�bios os brilhos dum sorriso;
Era o mundo mostrando o para�so
Na figura mais pura da inoc�ncia
Onde a flor que habitava a consci�ncia,
Exalava o seu n�ctar preciso.
X
Encontrei nas margens dos barreiros
Sertanejas com ares sedutores,
Com olhares cobertos de fulgores
Dando passos suaves e maneiros.
Eu senti os seus h�litos faceiros
Envolver-me com m�gica leveza,
Eram encantos da pr�pria natureza
Seduzindo meus loucos devaneios,
De caboclas que tinham lindos seios
Com feiti�os de pl�cida beleza.
XI
Eu fiquei divagando sobre os mares
No sert�o do nordeste brasileiro;
Foi usando o meu barco-vaqueiro
Que eu passei por ins�litos lugares.
Visitei os distantes patamares
E abismos que t�m na imensid�o;
Vi fantasmas cru�is da solid�o
Como nuvens pesando sobre mim,
Que eu pensei que seria o meu fim
Na odiss�ia long�nqua do sert�o.
XII
Depois de andar por todos os recantos
Eu voltei pro meu canto pequenino,
Onde vivi os tempos de menino
Sobre as plumas de doces acalantos.
Retornei conduzindo n�alma encantos,
E tamb�m os pavores de outros mundos;
Vi a dor dos homens moribundos,
Vi princesas, serpentes, mil panteras,
Cantadores, vaqueiros, grandes feras,
Navegando nos mares mais profundos.
�rvore de Afetos
I
Um pequeno colibri
Voando na natureza,
Beijou com delicadeza
As flores do meu porvir,
No intimo senti fluir
O perfume do meu ser,
Fazendo a alma crescer
No jardim dos sentidos,
Onde os poemas floridos
Fazem o peito enternecer.
II
Nos ramos do cora��o
Um bem-te-vi fez assento,
Pra cantar o sentimento
Da paisagem do Sert�o.
Eu senti uma como��o
Invadir-me por inteiro,
Fazendo o peito umbuzeiro
Lacrimejar dos seus galhos,
Pequenas gotas de orvalhos
Sobre meu rosto brejeiro.
III
Nas flores da alma suave
O vem-vem da esperan�a,
Mostra meu lado crian�a
Onde n�o existe entrave.
O meu peito sente a ave
Com seu canto matutino,
Onde meu jeito menino
Tem o l�rio da inoc�ncia,
Que exala da consci�ncia
Um perfume cristalino.
IV
No galho mais imponente
Do p� da minha exist�ncia,
Um sabi� com cad�ncia
Canta de forma contente.
O concriz leva a semente
No bico do amor fraterno,
Pra plantar no frio inverno
A �rvore da comunh�o,
Dando sombra ao cora��o
Num aconchego eterno.
Menino Passarinho
Poema musicado por Galv�o Filho
I
Sou menino passarinho
Com as asas da ilus�o
Que voa com o cora��o
Vivendo cada cada caminho.
O cantar � o meu ninho
Nos galhos da fantasia
Onde o verso melodia
Mostra suave compasso
Levando a voz ao espa�o
Num canto de poesia
II
Como a fruta do repente
Com o bico do meu verso,
O improviso � o universo
Na copa do peito ardente.
O meu cantar t�o contente
Deixa a passarada em festa,
Que anima toda a floresta
Acordando os trovadores,
Onde p�ssaros cantadores
Cantam de forma modesta
III
Vivo a voar nos meus sonhos
Entre os galhos da esperan�a,
Levando o meu ser crian�a
Que mostra l�rios risonhos.
Evito espinhos tristonhos;
Fa�o v�os sobre as campinas,
Vendo as �guas cristalinas,
Mostrando lindos orvalhos,
Que escorrem sobre os galhos
Dourando as folhas divinas
IV
Eu beijo as flores do canto,
Pouso em copas de poemas,
Gorjeio mostrando emblemas
De um delicado acalanto.
Levo o riso, inv�s do pranto,
Minhas asas t�m carinho,
Boto amigos no meu ninho,
As plumas s�o aconchegos,
Que causam ternos sossegos
De um menino passarinho.
******
Contemplando o Oceano
I
Longe do sert�o, contemplando o oceano,
E olhando a beleza das �guas marinhas,
Fiquei encantado, nas horas tardinhas,
Assistindo o mar num bal� soberano.
O sol se inclinava com seu porte ufano
Dourando as espumas da cor de cambraia,
E as ondas aflitas vinham da antepraia,
Derramando l�grimas sobre as areias,
Vertidas dos olhos de lindas sereias
Para dar mil beijos no corpo da praia
II
O oceano irado, por causa da noite,
Batia com f�ria nos grandes rochedos,
Deixando minh�alma tremendo de medos
Por causa do forte e infind�vel a�oite.
A V�nus surgia no c�u pra o pernoite
Como uma princesa de puro desejo
Usando seu riso mandava-me um beijo
Atrav�s das belas estrelas cadentes,
Que desciam do c�u em curvas fulgentes
Pra banhar de luz o meu ser sertanejo.
III
O mar orgulhoso olhava pra mim,
E dizia que tinha grandes imp�rios,
Que ocultava nas �guas muitos mist�rios,
Os quais nenhum homem sabia seu fim.
Contou-me que no fundo tinha um jardim
De plantas ex�ticas, com outros olores,
Florestas imensas, de belos verdores,
Cavernas ocultas, lugares profundos,
Crust�ceos e peixes de exc�ntricos mundos,
Que causam encantos e muitos pavores.
IV
Vi o dia vir e fiquei contemplando,
Os segredos do gigantesco oceano;
Como sabe pouco do mar o humano,
Quando mais nele vai se aprofundando.
Eu senti minha alma no peito agitando
As eternas ondas que tem meu cantar;
Levantei-me, dei passos a caminhar,
Carregando nos ombros minha sacola,
Fazendo improvisos ao som da viola
Cantando um galope na beira do mar.
Plantador de Sonhos
Poema musicado por Mirab� Dantas
I
Eu sou plantador de sonhos
Nos campos da fantasia,
Onde �s �guas da poesia
Germinam l�rios risonhos.
Arranco espinhos tristonhos
Com a enxada dos encantos;
Meus adubos s�o os cantos
Das aves do amor fraterno,
Pra vingar no ch�o materno
Um ro�ado de acalantos.
II
Sempre jogo sobre a terra
As sementes da verdade,
Pra o fruto da liberdade
Resistir a cruel guerra.
Quando escalo uma serra
Eu enterro os gr�os do riso,
Que fecunda um para�so
Em cada lugar que passo,
Onde o suor dum abra�o,
� meu inverno preciso.
III
Quando est� seco o sert�o
No deserto dos sentidos;
Eu planto cantos floridos,
Onde o verso � a irriga��o.
Cada poema � um gr�o
Que o passarinho conduz
Pra plantar com amor e luz
O sonho dum novo mundo
Onde o bem seja fecundo
Que a todo mundo seduz.
IIII
Em cada cova que planto
A semente � a crian�a,
Pra brotar uma esperan�a
Sobre o rochedo do pranto.
Fa�o o sol jogar um manto
Com fulgores da bondade,
Onde a luz do peito invade
Os sens�veis cora��es,
Pra brotar as comunh�es,
Sobre o campo da amizade.
Retirantes do Paje�
Poema Teatral/Oper�stico
O manto da noite faz sombras no sert�o,
Acompanhado dum terr�vel vento forte,
Que mostra o v�u da assustadora escurid�o
E solta gritos parecidos com o da morte.
Sob um casebre constru�do de argamassa,
Mulheres magras, meditando, fazem prece,
Com temor da morte que por a porta passa,
Trazendo o medo que o candeeiro estremece.
II
Vendo, na tela do sert�o, macabras cenas,
Velhas beatas rogam a Deus num s� lamento,
Como se fossem condenadas Madalenas,
Derramam prantos, se afogando no tormento.
Mesmo de longe, s�o ouvidos os louvores,
Cheios de rezas, choros, s�plica e ora��o,
Vendo o sol que j� secou o �Paje� das Flores�
E sugou toda a �gua que tinha no ch�o.
III
Assim que � noite com o v�u desaparece
O �Rei do fogo� surge de forma inclemente.
E a escurid�o perde a roupagem e fenece,
Para nascer o dia com o seu clima quente.
De longe, o vento traz um s�rdido calor,
Dando impress�o que vem do fundo dum vulc�o,
Pra exalar sobre a terra um l�gubre ardor,
Num prenuncio que vai pegar fogo o Sert�o.
IV
O pajeusense ver murchar toda a esperan�a
Diante da cena que surge na alvorada,
E diz pra esposa que prepare a crian�a,
Pra come�ar, em breve a triste retirada.
Ergue o olhar, desfalecido e sem ter brilho,
Tendo, no corpo, pendurado um matul�o,
No qual s� tem como alimento para o filho,
A rapadura, a farinha e o feij�o.
V
Da porta, ele olha pra lagoa calcinada,
Onde o cascalho se parece com uma brasa,
Fazendo crer que toda terra ressecada
Recebeu o forte calor que no inferno abrasa.
Sobre um curvado e ressequido umbuzeiro,
Um urubu, com paci�ncia aguarda a morte
Do pajeusense, que parece um marmeleiro,
Quando outrora, foi um vaqueiro bravo e forte.
VI
Sentada no banco, padecendo de mis�ria,
A sua esposa se parece com um graveto,
Que de t�o magra, sente na fr�gil mat�ria,
O bra�o da morte, mostrando o traje preto.
O deca�do seio, sem ter leite e mole,
Com apar�ncia duma velha fruta murcha,
O qual, a magra filha l�nguida se bole,
E, tremendo de fome, com os l�bios puxa.
VII
Mas, ao inv�s de encontrar leite, � o sangue
Que aparece do magro seio como alento,
Pra alimentar o esqu�lido corpo langue,
Que sente na alma profund�ssimo tormento.
De cora��o seco e nos olhos a l�grima,
Sente um vazio no peito e na vista um v�u,
Fazendo o �ntimo sentir m�rbida l�stima,
E, dentro da boca, um amargoso fel.
VIII
Os retirantes partem, dando adeus a terra,
Tendo a saudade como a sua companhia,
E olham pro vale, pra campina e pra serra,
V�em abutres que chegam pra vil profecia.
Uma crian�a fraca chora bem baixinho,
Levada pela m�e, agarrada ao vestido,
Cambaleando sobre o tortuoso caminho,
Entre as juremas, sobre o solo ressequido.
IX
Pela caatinga, n�o escutam a passarada,
S� os gemidos que ecoam no deserto,
Soprando sobre outra casa abandonada
Onde o fantasma da morte esteve perto.
Pelas estradas, xiquexiques, marmeleiros,
Mandacarus, coroa-de-frade e jurema
S�o parecidos com ignotos guerreiros,
Sobre a pel�cula dum estranho cinema.
X
Se arrastando, passam pelo leito do rio,
A onde existiam correntezas, em outras eras,
Que, esbravejando, enchiam secos baixios,
Com a voraz valentia de mil panteras.
Agora, s� v�em esqu�lidos garranchos,
Cada um preso entre as brechas dum lajedo,
Tendo seus galhos estendidos como ganchos,
Parecendo homens condenados ao degredo.
XI
A infind�vel prociss�o dos retirantes
De p�s descal�os, sobre os duros carrascais,
D� gritos de dores, de agruras e de ais;
Sofrendo quedas, andando cambaleantes.
Magras mulheres, pais famintos, tristes filhos,
Mostram a aus�ncia duma Na��o indiferente,
Que n�o enxerga os sertanejos maltrapilhos,
Onde o poder � um governo sempre ausente.
XII
Sentindo a pele ressecada pelo o sol,
Os retirantes sofrem o peso do ver�o,
Onde a esperan�a � um cinzento arrebol
Anunciando uma vida de escurid�o.
Ontem, aurora de velozes cavaleiros,
Que, na caatinga, la�avam o valente touro.
Hoje, crep�sculo de condenados vaqueiros,
Perseguidos pela morte, com seu agouro.
XIII
S� deixaram para tr�s decr�pitas casas,
Onde brincava, a crian�a enternecida,
Agora, s� sentem a companhia das asas
Dos urubus, como uma l�gubre guarida.
Em v�o, buscam encontrar algum aposento,
Mas s� encontram algumas �rvores nuas,
E, cabisbaixos num tristonho andar lento,
V�o mastigando amargosas ra�zes cruas.
XIV
De vez em quando, olham para o horizonte,
Dando mil passos, tortos e desconjuntados,
Mas s� enxergam a sequid�o atr�s do monte,
E, l� em baixo, os descampados ro�ados.
O pai olha o filho que est� magro de fome,
T�o desnutrido e fraco que o faz tremer,
E nem botou sequer um apelido ou nome
Porque sabe que em breve o filho ir� morrer.
XV
Ao lado da m�e, uma esqu�lida menina
Como um graveto duma �rvore quando seca,
Que de t�o fraca o pequenino corpo afina,
Conduz nos bra�os uma risonha boneca.
Para o humilde e confession�rio brinquedo,
Fala baixinho, prometendo uma comida,
Na intimidade de um inocente segredo
Onde a esperan�a, no cora��o, � sentida.
XVI
Sob o sol, que derrama o raio abrasador,
A prociss�o, sem rumo, de magros famintos,
� cruelmente trespassada pela dor,
Numa confusa estrada, com mil labirintos.
Os retirantes olham as casas sem portas,
Por onde a fome j� abriu cru�is caminhos,
E assistem um cen�rio de vacas mortas,
Ca�das sobre carrascais, entre os espinhos.
XVII
A companhia, que a pobre fam�lia tem,
� uma nuvem de famintos urubus,
Que, parecidos com fantasmas, v�m do al�m,
Pra rondarem os magros corpos quase nus.
Gritos, revoltas, choros, dores, maldi��es,
S�plicas, rezas, ladainhas e lamentos,
Se misturam com longos prantos e ora��es,
Numa trag�dia dantesca de mil tormentos.
XVIII
Passando num vale, onde tinha uma fonte
,
A prociss�o, fantasmag�rica e sofrida,
Olha perdida, procurando um horizonte,
Onde, talvez, encontre algum tra�o de vida.
Mas s� enxerga uma cinzenta sequid�o
Sobre a plan�cie, sobre o vale e sobre a serra,
Onde o ardente sol causticante do ver�o
Deixa uma marca de trag�dia sobre a terra.
XIX
Os retirantes, com sede, procuram �gua,
Mas encontram desertos e vazios po�os,
Que inunda os cora��es com um rio de m�goa,
Secando as almas de corpos que s� t�m ossos.
Com as m�os, buscam �gua no ch�o ressequido,
Ouvindo som, que sai da agourenta acau�,
Que, sobre um toco, solta um funesto gemido,
Profetizando que a busca por �gua � v�.
XX
Sem casa, sem terra, sem p�tria ou na��o,
A multid�o de homem, mulher e menino,
Vai trope�ando nas pedras do seco ch�o,
Dando mil passos para um confuso destino.
A prociss�o dos famintos mostra um Pa�s
Que � t�o grande, mas � dividido pra poucos;
Enquanto um grupo de ricos canta feliz,
A multid�o de famintos chora como loucos.
O canto da Terra
I
O meu canto vem da terra
Arrancado do ch�o bruto
Delicado feito um fruto
Imponente como a serra.
Joga flores sobre a guerra
Com as p�talas do amor;
Faz nascer um esplendor
Nos campos da escurid�o
Onde a luz do cora��o
Toca na alma com fulgor.
II
Ele mostra uma menina
Na aurora de um sorriso;
Da flor � o n�ctar preciso
No jardim duma campina.
Tem o som d��gua divina
Escorrendo nos rochedos;
Possui l�ricos segredos
Das vozes dos sabi�s,
Que cantam os madrigais
Nas copas dos arvoredos
III
Tem o vigor da aroeira,
A sombra do umbuzeiro,
Resplandece o puro cheiro
De um p� de laranjeira.
Possui a can��o brejeira
Dos sapos numa vazante;
� um rouxinol cantante
Nas brechas dum telhado,
Com seu canto delicado
Numa manh� fulgurante.
IV
Ele � filho do repente
Da terra dos cantadores;
Tem a pureza das flores
Que brota duma semente.
Flutua sobre a corrente
Do Paje� majestoso;
Tem o som maravilhoso
Dum seresteiro concriz;
E mostra o Sert�o feliz
Durante o inverno bondoso
�guas do Paje�
Poema �pico
I
Como o sangue que borbulha pulsante
Das art�rias que saem dum cora��o;
Cada estrofe tremula em borbot�o
Do fugaz Paje� sempre vibrante.
Sua fonte jorra o verso brilhante
Sobre o leito que corre sentimento,
Onde as artes s�o o veio do alento
Transbordando de sonho e fantasia,
Inundando as ribeiras de poesia
Onde a verve � sempre nascimento.
II
A viola que serve de instrumento
Solta o som da pequena correnteza,
Pra banhar os sentidos de beleza
Com afetos suaves como o vento.
Na vertente cristal do pensamento
Cada c�rrego que flui nos rochedos,
Leva versos cobertos de segredos.
Para um vale de l�rica exist�ncia,
Onde est� a sens�vel consci�ncia
Pra florir o viver com cantos ledos.
III
Sobre as margens, antigos arvoredos,
T�m nos galhos as flores do improviso;
Onde o canto demonstra um para�so
Na paisagem sutil dos versos quedos.
O repente que desce nos lajedos
Vem da fonte veloz da inspira��o,
Cada flor tem um verso de �Canc�o
�,
Nas barrancas h� troncos dos �Batistas
�,
Cada som tem a voz dos repentistas,
Numa enchente do verso e da can��o.
IV
Nos seus c�rregos se ouve a entona��o
Dos cantores cantando em serenatas,
Transbordando o lirismo em cascatas
Atrav�s de um sonoro viol�o.
O veloz Paje� da inspira��o
Quando desce conduz mil poemas,
Enfeitando com d�lcidos emblemas
As distintas paisagens dos sert�es,
Atingindo os sens�veis cora��es
Na enchente fugaz dos belos temas.
V
Sobre as margens se escutam nas juremas
Alguns versos passando em ventanias,
Tendo o eco de antigas cantorias,
Onde a m�trica e a rima s�o os lemas.
Nos regatos se encontram os poemas
Flutuando nas �guas do repente;
Quem passar por perto ainda sente
Os fantasmas poetas do passado,
Que fizeram do canto improvisado
Uma fonte que n�o seca a vertente.
VI
Os remansos que surgem da enchente
Trazem versos do vate �Bio Crisanto
�;
Um poeta atingido pelo pranto
Com espinho no corpo e flor na mente.
Quando as �guas tremulam na corrente
S�o poemas do imortal Rogaciano
,
Que cantou contra o mundo desumano
Na defesa dos pobres e oprimidos,
Que nas margens soltavam os gemidos
Flagelados no mar do desengano.
VII
Sobre o leito transcorre o verso ufano
De um poeta que ainda � menino,
Atrav�s de um poema cristalino
Mais profundo e maior que o oceano.
Cada enchente que chega todo ano
Vem da fonte dum vate delirante,
Cuja idade j� mudou seu semblante
Mas a mente n�o perdeu os primores;
Onde os versos transbordam de amores
Enfeitando a esperan�a verdejante.
VIII
Sobre as ondas o verso triunfante
Representa o poeta Antonio Marinho
Seu repente foi quem abriu caminho
Na enchente do improviso fulgurante.
Cada veio que desce a todo instante
Traz as �guas dum vate mais recente
Aumentando o volume da corrente;
Onde as mil borboletas da poesia
Tomam banhos nas �guas da magia
Refrescando um sentido aurifulgente.
IX
Cada c�rrego de �gua transparente
Mostra o fundo da nobre inspira��o,
Parecendo que o rio tem cora��o
Onde o verso � seu sangue fluente.
Cada artista aumenta sua enchente
Quando verte do seu peito inspirado,
Uma fonte do canto improvisado,
Com sonoro borbulho cristalino
Onde o som reverbera como um hino
Numa orquestra de coro afinado.
X
Num rochedo se encontra enganchado
Os del�rios de Job
, �Rei do lirismo
�,
Que cantou no repente o romantismo
Sobre as �guas dum peito apaixonado.
Paje� � um rio onde o reinado
Foi erguido atrav�s da poesia;
No seu reino governa a fantasia,
No seu trono quem senta � o sentimento,
Sobre as �guas navegam como o vento
As can��es dos poetas todo o dia.
XI
� comum encontrar a melodia
Da can��o dos poetas cantadores,
Ou pain�is de fant�sticos pintores
Sabre as �guas descendo em harmonia.
Os orvalhos da aurora que irradia
T�m nos pingos got�culas de versos,
Que se somam aos poemas submersos
Aumentando a corrente dos encantos,
Transbordando de versos e de cantos
Enfeitando os mil c�rregos dispersos.
XII
Sobre as �guas fluem vates diversos,
As paisagens t�m telas dos pintores,
Na corrente tem vozes dos cantores,
Do profundo sobem s�bios imersos.
Nas cascatas brilham cantos emersos,
Estrondando nas rochas dum grot�o,
Revelando o lirismo do sert�o,
Atrav�s dos encantos da poesia
Para um lago de lenda e fantasia,
Que transcende do fundo um cora��o.
XIII
Eu s� pe�o pra nova gera��o
Para n�o poluir as �guas puras,
Atrav�s das ef�meras culturas
Com dejetos da massifica��o.
O voraz monstro da aliena��o
� a mancha do rio que � divino,
N�o respeita o poeta genu�no
Muito menos o brilho da hist�ria,
Onde o vate despeja da mem�ria
A corrente do verso cristalino.
|