Meu Perfil

Sitio Queimadas

   Gilmar Leite, natural de S�o Jos� do Egito, Sert�o do Paje� Pernambucano. Atualmente residentente em Natal, RN.

 Tr�s livros publicados: "Liberta��o"(1994),"�xtase"(2000) e "Nascimento"(2004), e est� na f ase de produ��o final do cd com poesias recitadas com o titulo de  "�guas do Paje� ".

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Paj�u:

Um rio que corre Sentimentos

O Rio Paje�, geograficamente, � como qualquer rio do sert�o nordestino. As �guas que correm no seu leito s�o tempor�rias. A maior parte do ano, ele vive seco. Mas, em rela��o aos outros rios do Brasil afora, ele tem algo de m�stico. J� que a natureza deu poucas �guas pra ele, a mesma o presentiou com  igual propor��o com que fez com a Gr�cia antiga atrav�s dos fil�sofos e poetas. No seu leito ao inv�s de �guas, descem em borbot�es uma infinidade de poetas e cantadores. A hist�ria do Paje� e do seu povo, ainda n�o foi contada por algum historiador atento. Entretanto, os artistas atrav�s dos seus trabalhos singulares e magn�ficos v�m formando um legado de grandeza imensur�vel.

 Filhos do Paje�

Antonio Marinho (Poeta Repentista)

Rogaciano Leite (Poeta Repentista)

Z� Dantas (Compositor)

Lampi�o (Cangaceiro)

Lourival Batista (Poeta Repentista)

Maciel Melo (Cantor)

Arnoud Rodrigues (Ator)

Dimas Batistas (Poeta Repentista)

Paulo Matric� (Cantor)

Job Patriota (Poeta Repentista)

Bia Marinho (Cantora)

Otac�lio Batista (Poeta Repentista)

Val Patriota (Cantor)

Canc�o (Poeta)

Antonio Silvino (Cangaceiro)

L�cia Matos (Pintora)

Lamartine Passos (Poeta e Compositor)

Zez� Lulu (Poeta Repentista)

Inaldo Sampaio (M�sico)

Cac� (M�sico)

Delmiro Barros (Cantor)

Z� Cat�ta (Poeta Repentista)

Nivaldo Matos (Pintor)

Ant�nio Pereira (Poeta Repentista)

Hel�i (M�sico)

Marcos Passos (Poeta)

Roosevelt Siqueira (Pintor)

Diomedes Mariano (Poeta Repentista)

Paulo Passos (Poeta e Compositor)

Edierk (M�sico)

Ded� Monteiro (Poeta)

Edinaldo Leite (Poeta e Compositor)

Ant�nio Marinho do Nascimento (Poeta)

Severina Branca (Poetisa) 

Alu�sio Lopes (Cantor)

Didi Patriota (Poeta)

Arlindo Lopes (Poeta)

Beatriz Passos (Poetisa)

L�zaro Pessoa (Poeta Repentista)

Zez� Morais (Poeta Repentista)

Greg Marinho (Poeta e M�sico)

N�e Patriota (Poeta)

Jos� Rabelo (Poeta e Apologista)

Aleixo Leite Filho (Poeta e Apologista)

M�rio Gomes (Poeta)

Sales Rocha (Poeta e Cantor)

Ismael Pereira (Poeta Repentista)

M�rcio Rocha (Cantor)

Rafaelzinha (Poetisa)

Pedro Amorim (Poeta Repentista)

Tom Marinho (Cantor)

Brand�o Filho (Poeta)

Bio Crisanto (Poeta e Fil�sofo)

Pedro Lulu (Poeta Repentista)

Jo�o Campos (Poeta)

Zez� Lulu (Poeta Repentista)

Jo�o Filho (Poeta)

C�lia Siqueira (Poetisa e Pintora)

David Rocha (Poeta)

Dimas Bibiu (Poeta)

Paulo Cardoso (Poeta)

Valdir Teles (Poeta Repentista)

Fl�vio Lira (Poeta)

Ch�rliton Patriota (Poeta)

Arnaldo Pessoa (Poeta Repentista)

Mizita Passos (Poetisa)

Jailson Queiroz (Poeta)

Das Neves marinho (Poetisa)

Z� Silva (Poeta)

Dirceu Rabelo (Poeta)

Francisco Santana (Poeta)

Hil�rio Marinho (Poeta)

Z� Pequeno (Poeta)

Manuel Fil� (Poeta)

Maria de Lima (Poetisa)

Terezinha Costa (Poetisa)

Izabel Marinho (Cantora)

Afonso Campos (Poeta)

Beijo (Poeta)

Egito de Siqueira (Poeta)

Quem nunca leu Rogaciano

Aquele g�nio infinito

Quem nunca escutou Marinho

Nem de "Louro" ouviu um grito

N�o conhece dez por cento

De S�o Jos� do Egito.

                                            Ded� Monteiro


Nas �guas do Paje�

A poesia � a correnteza

Que inunda o ch�o dos sentidos

Com ternura e sutileza

Banhando  de forma florida

Nossa alma com grandeza


                                          Gilmar Leite














Sites Indicados

www.gilmarleite.zip.net

http://gilmarleite.nafoto.net/

www.saojosedoegito.com





             Primeiro Livro

              Segundo Livro

Terceiro Livro



�guas do Paje�

Sobre Severina Branca

A poetisa meretriz

        Nos idos anos 70, quando as v�timas da  prostitui��o geralmente eram mulheres muito pobres e de pouca beleza, ou nenhuma, que vendiam os corpos para sobreviver ou alimentar os filhos de pais que n�o assumiam, e que as mesmas n�o tinham amparo nenhum da lei ou do poder governamental, Severina Branca, uma das pioneiras na prostitui��o em S�o Jos� do Egito (Pe), ao passar pela barbearia de Z� Rocha, encontrou dois poetas repentistas improvisando versos numa cantoria de p� de parede, Severina Branca parou e ficou encostada ouvindo os vates na peleja da viola. No intervalo de um bai�o de viola pra outro algu�m olhou pra Severina Branca e disse: "Severina diga um mote pra os poetas improvisarem". Severina Branca pensou um instante e disse um monte que hoje est� imortalizado dentro do universo da poesia nordestina. O mote foi "O silencio da noite � quem tem sido/Testemunha das minhas amarguras". Os poetas improvisaram belos versos. Quando terminou a cantoria, Severina Branca se dirigiu para seu pequeno quarto/casa e fez algumas estrofes, que infelizmente eu n�o as tenho. No transcorrer dos anos muita gente fez decass�labos em cima dos motes de Severina Branca. Hoje depois de muitos anos foi que a inspira��o veio a tona e eu fiz alguns decass�labos usando o mote da poetisa marginal. Hoje a poetisa Severina Branca reside num povoado distrito de S�o Jos� do Egito chamado Mundo Novo, que fica no limite com a Para�ba, tendo Ouro Velho no Cariri paraibano, como vizinho.

Hoje ela perambula por algumas cidades do Cariri e do Paj�u, como um fantasma de outro mundo. Corpo esquel�tico e �s vezes seminua. Quando a mente estar com um pouco de lucidez, Severina declamar seus versos.

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras

I

Mergulhei nos abismos infernais

Que nem Dante deu passos com Virgilio

Na loucura de achar algum aux�lio

Eu sofri nos sub�rbios marginais.

Vi o ocaso nas horas matinais

Entre os bra�os de estranhas criaturas

Os contatos fortuitos �s escuras

Ecoavam com o sopro dum gemido

O sil�ncio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

II

Troquei beijos com bocas amargosas

Sob as luzes dum velho candeeiro

E dos corpos senti estranho cheiro

Entre as sombras de noites vaporosas.

Hoje as marcas das dores horrorosas

S�o sinais dos momentos de loucuras

Machucando minh�alma com torturas

E deixando o meu ser enlouquecido

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

III

Inda sinto o tumulto das m�os sujas

Afagando o meu corpo pecador

Ao inv�s do prazer sentia dor

E no peito uma voz dizendo fujas.

Entre as brechas das telhas as corujas

Agouravam as minhas desventuras

Eu gritava pra Deus l� nas alturas

Leve logo este ser que � t�o sofrido

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

IV

Muitos homens chegavam embriagados

Dando chutes na porta como loucos

Os gentis para mim foram t�o poucos

Eram seres tristonhos, reservados.

Eu perdi a no��o dos meus pecados

Pois a fome causava-me tonturas

Numa vida com facas de agruras

Que cortavam meu peito ressequido

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

V    

Sobre a cama meu corpo se tremia

De fraqueza, de fome e de sede;

Noutro canto meu filho numa rede

Quem o olhasse pensava que morria.

Pois a fome causava-lhe agonia

Lhe roubando fagulhas de venturas

Eram cenas cru�is de vidas duras

Condenadas num mundo corrompido

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

VI

Hoje eu vivo jogada ao relento

Sem um teto sequer para dormir

O passado, o presente e o porvir,

Me jogaram no duro calcamento

Condenada num frio isolamento

O meu corpo s� tem as ossaturas

Pra os insetos fazerem aventuras

Ferroando o que j� foi consumido

O silencio da noite � quem tem sido

Testemunha das minhas amarguras.

  

                  Sobre Z� Marcolino                               

Embora este Blog tenha sido constru�do para divulgar alguns t�picos referentes � cultura do Paje�, n�o poderia esquecer jamais a import�ncia cultural do que foi o poeta/compositor e cantador do Cariri paraibano, Jos� Marcolino. O mestre de Sum� foi uma mistura de paraibano com pernambucano, pois o mesmo viveu sempre de um Estado para outro. Isto �, de Sum�, passando por S�o Jos� do Egito, at� Serra Talhada, onde constituiu sua fam�lia. Isso fez com que a sua m�sica sempre expressasse a vida do povo de ambos os Estados.

E u tive a felicidade de ter convivido com ele durante a minha adolesc�ncia em S�o Jos� do Egito. Sempre muito cort�s, voz grave, express�o fision�mica m�xima do caboclo nordestino, Marcolino marcou minha vida nos primeiros tempos da minha constru��o de identidade cultural. O bar de Jo�o Macambira (atr�s da minha casa), era o reduto dos bo�mios, poetas, intelectuais e cantores que circulavam pela regi�o do Cariri e do Paje�. Z� Marcolino sempre foi uma presen�a constante. Quando tinha algu�m pra acompanh�-lo no viol�o, Marcolino nos presenteava com suas can��es belas, e se n�o tinha ningu�m com um viol�o, ele cantava, tendo como instrumento uma caixa de f�sforos. O meu irm�o Betinho, que faleceu prematuramente vitimado por um acidente automobil�stico como Marcolino, acompanhou com seu viol�o muitas vezes o poeta cantador nos saudosos tempos de boemia cultural do bar de Jo�o Macambira. O interessante era que o bar n�o tinha sanit�rio, e a gente usava o l� de casa entrando pela porta do muro. Quando a grana s� dava pra comprar a cacha�a, a gente gritava da porta do muro pra minha m�e pedindo que ele enviasse o almo�o pra ser o nosso tira-gosto.

Hoje, aqui em Natal, �s margens do Potengi, ouvindo a m�sica de Marcolino, uma saudade daqueles tempos e do poeta  bateu em mim de maneira profunda, arrancando da minha alma um singelo poema em homenagem ao poeta paraibano/pernambucano. As palavras que est�o entre aspas s�o t�tulos de algumas m�sicas de sua autoria. O compositor potiguar Galv�o Filho, um dos meus parceiros  musicou o poema com duas melodias que ficaram bel�ssimas. Uma � um xote e a outra � um bai�o.

  Saudade de Marcolino

                                          Poema musicado por Galv�o Filho  

Marcolino, poeta cantador,

A �Cacimba� secou de tanto pranto

O �Car�o� n�o escuta o teu canto

�Sabi� padeceu de tanta dor.

O �Ci�me da Lua� se acabou

Hoje vives morando perto dela

Desenhando teu canto numa tela

Seduzindo-a com tua serenata

Despertando seu riso cor de prata

Num desenho de linda aquarela.

II

O �Serrote Agudo� estar tristonho

O "Fura-Barreira j� n�o tem mais casa

"Maribondo" j� bateu a sua asa

O "Sert�o de A�o" perdeu seu sonho

S� os vates de cima est�o risonhos

O teu canto � a �Saudade Imprudente�

Que machuca o sert�o que h� na gente

Como o pranto na �M�goa de um Vaqueiro�

Que tristonho, num banco do terreiro,

Faz aboios saudosos e dolente.

III

Oh! Poeta �Caboclo Nordestino�

As caboclas �Cintura de Abelha�

Soltam prantos em forma de centelha

Com saudades do canto campesino.

A �Cantiga do Vem-Vem� pequenino

Sobre os galhos da �Flor do cCumaru�

Faz sentir Cariri e o Paje�  

  A saudade das noites de S�o Jo�o 

  Ou as tardes tristonhas do sert�o 

   Entre os cantos dolentes do nambu.

IV

Hoje j� n�o se faz a mesma dan�a

 �Nicodemos� partiu pra outros cantos

N�o se encontram mais os mesmos recantos

Duma �Sala de Reboco� com pujan�a,

A saudade dos �tempos de crian�a�

A �Rolinha� com passos delicados

Um poeta con sonhos encantados

Numa "Estrada", pisando no destino,

Pra partir nos deixando um lindo hino

Atrav�s dos seus cantos coroados.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

O cavalo veloz da mocidade

Fica manco na estrada da velhice

                                                                              I         Poema musicado por Galv�o Filho

Fiz galopes nas trilhas da inoc�ncia

Num cavalo chamado fantasia,

Desbravando os caminhos da alegria

Entre os vales floridos da exist�ncia.

Os seus cascos velozes por ess�ncia

Davam saltos no ch�o da meninice;

O camp�nio do te mpo olhou e disse,

Que o viver passa  com fugacidade;

O cavalo veloz da mocidade

Fica manco na estrada da velhice.

II

Cavalguei na montanha do passado

No veloz alaz�o da adolesc�ncia,

Onde a vida � fugaz por excel�ncia

Igualmente um ocaso avermelhado.

O pequeno animal ficou cansado

Procurando o lugar da criancice;

Mas o tempo arrancou sua crendice

Perfurando com espinhos da idade,

O cavalo veloz da mocidade

Fica manco na estrada da velhice.

III

Eu passei na plan�cie do meu sonho

No corcel da ef�mera inf�ncia

Planejando o viver com toler�ncia

Sobre a trilha feliz dum ser risonho.

Veio o tempo com seu olhar tristonho

Me dizendo que nunca mais sorrisse

Que eu pegasse o cavalo e partisse

Sobre as pedras tristonhas da idade

O cavalo veloz da mocidade

Fica manco na estrada da velhice.

O po�tico mundo buc�lico de Canc�o

Mergulhar no universo da poesia de Canc�o, nos leva a um mundo de sonho e fantasia, o qual nos faz crer que a divina provid�ncia fez todos os esfor�os poss�veis pra realizar atrav�s da sua cria��o magistral, a mais nobre prova da beleza espiritual, expressada atrav�s da grandeza buc�lica de uma alma que sentiu e externou a natureza sertaneja da forma mais bela e encantadora. Filho do Paje� pernambucano, l�rio sublime da poesia de S�o Jos� do Egito, o poeta tinha uma sensibilidade e uma capacidade de pintar a natureza atrav�s das palavras, que nenhum pintor por mais capacitado que seja conseguiu.  O artista pl�stico mostra a natureza de forma est�tica. Canc�o atrav�s da poesia mostrou a natureza em movimento. Ao ler seus poemas, a nossa alma assiste os pingos dos orvalhos cristalinos escorrendo nos corpos nus das flores, contempla os c�rregos borbulhando no cora��o da mata, escuta a voz tristonha de um sabi� na solid�o, desperta com um pequeno rouxinol nas brechas do telhado, contempla as auroras e os arreb�is numa muta��o de cores, sente o delicioso cheiro do mel sendo fabricado na moagem de um engenho, se encanta vendo os pirilampos acendendo e apagando suas luzes na escurid�o noturna, v� os campos floridos, cheios de borboletas e colibris dan�ando numa festa matutina, e se assusta com as tempestades e enchentes no rio da aldeia egipciense.

Ao debru�asse na poesia do poeta p�ssaro, um conforto de delicadezas atinge a nossa alma, como o bater das asas de uma borboleta sobre as flores de um pl�cido jasmim. Cada pingo de orvalho que escorre atrav�s dos seus poemas buc�licos, banha nosso esp�rito de afetos, numa cachoeira de rimas e ritmos, com palavras belas, que embevecem e transbordam a lagoa dos nossos sentimentos. A sua poesia faz as estrelas ficarem bem pr�ximas da gente, nas quais, os dedos da nossa alma podem toc�-las e senti-las, recebendo os fulgores po�ticos, que clareiam a imensid�o dos sentidos. Nos poemas de Canc�o tudo se torna poss�vel. O �cisne�, p�ssaro de outras regi�es v�m nadar no rio da sua aldeia; a �maresia indiana�, traz seu cheiro pra perfumar o corpo de uma professora amiga; a pantera solta rugidos nas grutas do seu pequeno lugarejo; algumas flores de outras regi�es embelezam as campinas do Paje�; enfim, o poeta transporta pra sua aldeia animais e plantas de outras regi�es, construindo um inusitado nicho ecol�gico.

Canc�o conseguiu atrav�s da poesia campestre mostrar a caatinga sertaneja na explos�o invernal dos tempos de chuvas da forma mais encantadora poss�vel. Seu poema �Depois da Chuva�, desenha a beleza da flora e fauna do sert�o nordestino de uma forma t�o sublime e bela, que at� parece que todos os poros do seu corpo tinham um olhar de sensibilidade atento para aquela �tarde de abril�, quando o rouxinol, o sabi�, os colibris, os regatos, as borboletas, as abelhas, o sol e as flores, formaram um mundo de encantos buc�licos, ocultados na sua alma e revelados atrav�s de um poema cl�ssico, digno da mais fiel enciclop�dia universal da poesia.

O poeta/verde conseguiu com profunda sensibilidade e dom�nio das palavras aproximar o homem da cria��o divina. Cada verso, que ele fez sobre a natureza, � de uma perfei��o t�o impressionante, que uma enxurrada de emo��es inunda cada lagoa do nosso cora��o. Mergulhar no mundo do aedo buc�lico, saborear seus poemas, sonetos e outras formas liter�rias nos torna o mais humano dos humanos; nos faz crer, que o mundo visto por ele e expressado pela sua inspira��o � o lugar do sonho e da fantasia. Canc�o nos proporcionou a viajar nas asas dos colibris, dando beijos nas flores das campinas; nos fez sentar nas estrelas; nos fez sonhar com a liberdade atrav�s de um sabi� na solid�o de uma gaiola; nos levou aos riachos cristalinos da sua aldeia; nos fez verter prantos pela rolinha que teve o �Ninho Roubado�; nos causou uma reflex�o profunda sobre a morte, na solid�o das �Seis horas no Cemit�rio�; nos mostrou os detalhes da casa sertaneja, que abrigava um pobre �brio solit�rio; nos transportou pra o mundo dos abor�gines do Paje�, com seus paj�s, feiticeiros, arcos, flechas e tacapes; enfim, a sua poesia � uma viagem de del�rios, devaneios e sensa��es atrav�s das belezas da natureza e das profundezas da alma humana.                    

Sentir os seus encantos po�ticos, causa ao esp�rito humano uma esp�cie de do�ura e ternura angelical. Cresce dentro da gente uma vontade inexor�vel de contemplar a vida, e deixa a nossa exist�ncia enternecida.

Mas, como todos os poetas, Canc�o sofreu as dores da solid�o. No poema �Lamentos ao p� do tumulo�, ele externa todo seu �dio a terra que tanto decantou, por ela ter levado a mulher amada.

Acredito que o poeta do �Paje� das flores� deve est� nesse instante no para�so celestial da poesia, declamando seus poemas, acendendo estrelas e jogando orvalhos nas madrugadas celestiais.

Se os gregos de outrora tivessem conhecido a poesia de Canc�o, com certeza o teriam posto no trono de Zeus e colocaria na sua cabe�a divina a coroa de um Deus/Poeta.

Hoje, depois de v�rios mil�nio p�s era grega, e depois de algumas d�cadas da partida do vate da natureza, pra morar junto aos deuses das artes no Olimpio celestial, o poeta egipciense � extremamente necess�rio pra esse mundo louco, de tantos sentimentos vazios e mec�nicos. 

Se um dia Deus resolver mandar um emiss�rio a terra, acredito que ser� o poeta campestre que vir�, trazendo o mesmo esp�rito humano, a mesma inoc�ncia e simplicidade, a grande sensibilidade po�tica e os ensinamentos de respeito, amizade, fraternidade e solidariedade, que ele tanto mostrou atrav�s dos seus versos.

Apesar da sua poesia n�o denunciar de forma constante as opress�es sociais sofridas pelos afortunados e desamparados do poder governamental, Canc�o seguiu o mesmo caminho na constru��o do homem a partir da natureza, como fez o grande fil�sofo e educador Jean-Jacques Rousseau, no seu cl�ssico e po�tico livro, �Em�lio ou da Educa��o�.

Mesmo n�o relatando as agress�es do homem � natureza, Canc�o foi e � uma esp�cie de educador ambiental. A poesia por si pr�pria educa o homem, e quem l� os versos campesinos do poeta pajeusense, enxerga a natureza de maneira interativa, respeitando-a com carinho e admira��o.

Apesar do pouco estudo acad�mico, tendo s� cursado o prim�rio da �poca, Canc�o foi um ex�mio autoditada. Ele leu os grandes poetas cl�ssicos, como Casimiro de Abreu, Gon�alves Dias, Castro Alves, dentre outros. Mas, acima de tudo ele teve um estilo liter�rio pr�prio, embora tenha escrito alguns sonetos. O mais impressionante era a grandeza da sua verve. Com poucos temas ele criava um mundo de poesia. Bastava uma cena fugaz de alguma manifesta��o da natureza, que ele a eternizava de maneira impressionante. N�o foi um poeta da viola como a maioria dos poetas contempor�neos, mas glosava de improviso entre os vates amigos com a mesma capacidade dos grandes menestr�is do repente.

Seu nome de batismo era Jo�o Batista de Siqueira, mas n�o poderia existir um apelido mais digno do que Canc�o. P�ssaro de cor preta e branca, que habita as altas arvores da caatinga sertaneja, e que encanta atrav�s de um canto agudo e melodioso.

Todos os amantes da poesia deveriam agradecer ao grande criador do universo, por ter presenteado sobre a forma humana, a prova mais fiel da sua exist�ncia enquanto arquiteto das coisas belas que comp�em o mundo dos humanos. Canc�o, pureza da alma, exemplo de humildade, encantador que usou a poesia pra elevar nosso esp�rito, pincel vern�culo dos poemas campesinos, voz singela dos humildes, plantador de sonhos e fantasias, obrigado por nos proporcionar um mundo belo, cheio de auroras e esperan�as, nesses tempos de tantos ocasos e incertezas.

                                                                                         

                                                                                                                                                                 

  Depois da Chuva

                                                  J�o Batista de Siqueira (Canc�o )

I   

Era uma tarde de abril
A luz do sol se escoava,
Um tra�o da cor de anil
O c�u deserto mostrava.
Num lago triste e sereno
Nadava um cisne pequeno
Eri�ando as alvas plumas;
As derradeiras neblinas
Faziam lindas ondinas,
Por entre as brancas espumas.
II  
Um sabi� pesaroso
Nos galhos em que nasceu,
Cantava triste e choroso
As m�goas do peito seu.
O sol al�m se deitava
A sua luz se esvasava
Pela ramagem da horta;
A brisa em leves ru�dos
Levava os ternos gemidos,
Da tarde j� quase morta.
III  
A �gua branda descia
Pelo pequeno gramado;
A relva fresca e macia
Era um tapete rendado.
Se ouvia l� na colina
No cora��o da campina,
Solu�ar uma cascata;
E o sol com seus lampejos
Dava seus derradeiros beijos
No rosto verde da mata.
IV 
As auras rumorejavam
Com lentid�o e leveza;
Os regatos retratavam
Um lindo c�u azul de turquesa.
Os orvalhos cristalinos
Se desprendiam divinos
Da copa dos arvoredos.
As carna�bas rendadas,
Como com as m�os espalmadas,
O sol brincava em seus dedos.
V  
Voavam pelos verdores
Lindos colibris dourados,
Bebendo o r�cio das flores
Dos jiquiris borrifados.
No pomar um rouxinol
Contemplava o arrebol,
Numa profunda tristeza.
Um tra�o d�bil de luz
Rasgava os panos azuis
Do corpo da natureza . 
VI

Depois os ventos mansinhos
Sopravam no campo vago,
Fazendo alguns burburinhos
Na face lisa do lago;
As abelhas pregui�osas
Se escondiam nas rosas,
Que a natureza burila;
E o cisne de brancas penas
Cortava as �guas serenas
Da superf�cie tranq�ila.


                            

   Ser t�o Sert�o

  I

No meu peito, palpita um ser sert�o,

De invernadas ou secas causticantes,

Mostra os campos sutis e fulgurantes

E desertos que causam assombra��o.

Nele pulsa o crep�sculo dum ver�o,

Ou os fulgores das horas matinais;

Mostra os vales nos tempos invernais,

E revela os cen�rios de dois mundos,

Onde vivem os dois seres profundos,

Que t�m secas ou grandes temporais.

II

No meu ser, o sert�o vive presente,

Atrav�s dos costumes do seu povo,

Que resiste ao banal chamado novo

Parecendo um umbuzeiro imponente.

Nele pulsa as violas do repente

Atrav�s do improviso num arpejo;

Igualmente um rel�mpago em lampejo

Numa chuva de versos que me acalma,

No profundo oculto da minha alma

Onde vive um camp�nio sertanejo.

III  

  No sert�o da minha alma resplandece

A florada de um p� de umbuzeiro;

As sementes sutis do marmeleiro

Que a rolinha se alimenta como prece.

O meu ser t�o sert�o nunca fenece

Os jardins encantados da esperan�a;

Nele existe a certeza da bonan�a

Dum ro�ado com verdes p�s de milho,

Onde o pai tem certeza que seu filho

N�o ir� mais sofrer desesperan�a. 

IV

  Quem caminha na trilha do meu ser

Nela encontra o xaxado e o bai�o,

Na sanfona e na voz de Gonzag�o

Onde o canto � a forma de viver.

Um vaqueiro ab�ia com prazer

No oculto curral da exist�ncia,

De um ser sertanejo por ess�ncia

Que carrega no peito a sua terra

Desde o vale, a caatinga e a serra,

Dando passos fieis da consci�ncia. 

V

No meu peito se encontra a ladainha

Das beatas rezando em prociss�o;

Mostra a f� do camp�nio do sert�o

Enfrentando um viver que lhe espinha.

Canta dentro de mim uma rolinha

Num crep�sculo da tarde sertaneja;

Tem o som do caboclo na peleja

Conduzindo a boiada em passo lento,

Aboiando do peito um sentimento

Sob o sol causticante que dardeja. 

 VI

Dentro de mim ecoa um dialeto

De palavras do homem campon�s,

Que n�o fala o urbano portugu�s;

O dizer e entender pra ele � correto.

Na minh�alma carrego humilde teto

Das casinhas de taipa do sert�o,

Que s� tem na parede a devo��o

Sobre a forma singela dum retrato,

De Jesus padecendo no maltrato

Como a forma crist� da reden��o.

VII

O meu sangue possui o puro cheiro

Das ess�ncias da flor duma jurema

O cantar da afinada seriema

Sob a sombra dum verde juazeiro.

Eu carrego na minha�alma um vaqueiro

Nas corridas das grandes vaquejadas,

Argolinhas, S�o Jo�o e cavalhadas,

Cantorias, folguedo, aparta��o,

A novena, promessa e prociss�o,

Tradi��es, que est�o enraizadas.

VIII

O sert�o n�o � s� parte da terra

Ele estar no profundo do meu ser

Pra senti-lo � preciso compreender

Desde o vale, a caatinga e a serra.

A grandeza de s�-lo nunca encerra;

Eu o levo com risos ou com prantos,

Atrav�s dos poemas ou dos cantos

Como s�mbolo da minha identidade,

Onde a flor da cultura � a verdade

Exalando os costumes com encantos. 

   

Canto Rouxinol

Sinto um canto rouxinol

Na manh� dos meus sentidos,

Com os tons enternecidos,

Num acorde em si bemol.

Na aurora, ele � um sol,

Entre as brechas do telhado,

Entoando um gorjeado,

Onde a luz do seu cantar,

Faz minha alma despertar

Com seu canto delicado.

II   

O lindo p�saro silvestre

Que ecoa na minha mata,

Mostra o canto em sonata

Que alcan�a todo alpestre.

  O meu sentido campestre

Veste a roupa da campina,

Onde a �gua cristalina

Acompanha o passarinho,

Com acordes de carinho,

Tocando a escala divina.

III

Nas janelas da minh�alma

Sempre que o dia amanhece,

O lindo p�ssaro aparece,

Com o canto que me acalma.

Sua voz t�o doce e calma,

Enternece o ambiente,

Que meu ser fica contente

Nas plumas da sinfonia,

Onde o som da melodia

� leve como a corrente.

IV   

Ele mostra o meu segredo

Na copa verde dos sonhos,

Com lindos cantos risonhos

Nos galhos dum arvoredo.

Voa nos campos sem medo

Dos abismos da maldade;

Bates as asas da verdade,

Faz pouso em mil cora��es,

T�m beijos pra as comunh�es

E ninho para a amizade.   

                         

  Odiss�ia Sertaneja

I  

Naveguei sobre os mares do sert�o

Enfrentando as procelas do viver,

Subi ondas dif�ceis de vencer

Fui envolto na f�ria de um tuf�o.

Conduzi minha forte embarca��o

Em gargantas de rochas perigosas,

E passei por cavernas tenebrosas

Ocultadas nas brechas dum lajedo

Escondendo do mundo seu segredo,

Entre nuvens de formas vaporosas. 

 II

Abordei sobre as ilhas sertanejas

Pra um descanso na longa odiss�ia,

E escutei os sutis sons da id�ia

Num confronto de vates na peleja.

Eram deuses em frente da bandeja

Com violas fazendo cantoria,

Num or�culo coberto de poesia,

Que guiava com s�bio mandamento

O meu barco no mar do sentimento,

Sobre as �guas da longa travessia.

III

Encontrei sobre os mares sertanejos

A coragem dos bravos cavaleiros,

Penetrando em fechados marmeleiros

Pra jogar os seus la�os com ensejos.

Eram homens-her�is fazendo arpejos,

Semideuses com seu gib�o de couro,

Que enfrentavam a f�ria de um touro

Sem temer grandes chifres amolados,

Dando saltos nas cercas dos ro�ados

Que seus cascos brilhavam como ouro.

IV

Enfrentei nas cavernas montanhosas

Grandes monstros de uma s� vez,

Com espada, coragem e altivez,

Minhas lutas foram vitoriosas.

Eu olhei das escarpas pedregosas

O sert�o com seus grandes oceanos;

Levantei minha �ncora e fiz planos

Pra cumprir as promessas do destino

E voltar pro canto em que fui menino,

Derrotando os terr�veis desenganos.

V  

Na jornada enfrentei grandes serpentes

Com a for�a e coragem de um Sans�o,

Dando saltos, de espada sobre a m�o,

Enfiando-a nas brechas dos seus dentes.

Eu lutei contras as feras mais valentes

Sem jamais recuar frente aos perigos;

Nem temer de alguns deuses os castigos,

Que com f�ria fechava os caminhos

Me jogando em confusos remoinhos

Tendo os ventos somente como abrigos.

VI

Cavalguei sobre um l�pido corcel

Nas caatingas fechadas do sert�o

Com perneira, espora e um gib�o,

E brilhantes estrelas no chap�u.

Vi as nuvens correndo sob o c�u

Num crep�sculo de cor avermelhada,

Parecendo uma r�pida boiada

Procurando um curral na imensid�o,

Pra deitar-se na cama da amplid�o

E acordar com o vaqueiro da alvorada. 

 VII

Mergulhei num inferno tenebroso

Que nem Dante deu passos com Virgilio,

Vi pedintes suplicando um aux�lio

Num lamento cruel e lastimoso.

Eu vi que nenhum era criminoso;

Eram vitimas no mar do abandono,

De governo que tem homens no trono,

Dando acoites nas costas dos famintos

Transformando o viver em absintos,

Onde a vida � um fel de desengano .

VIII

  Foi recebido por reis e rainhas

No imp�rio do mundo sertanejo,

Que divide a comida sem ter pejo

Sob o teto das l�nguidas casinhas.

Vi meninas cobertas de florinhas

Parecendo encantadas princesas,

Que exalava as mais puras gentilezas

Num reinado com flores de bondade,

Onde a lei � a sutil fraternidade

Praticada com mil delicadezas.

IX

Eu vi ninfas caboclas do sert�o

Num ro�ado plantando lindos sonhos,

Entoando os sutis cantos risonhos

Numa l�rica e pl�cida can��o.

Tinha um l�rio enfeitando cada m�o,

E nos l�bios os brilhos dum sorriso;

Era o mundo mostrando o para�so

Na figura mais pura da inoc�ncia

Onde a flor que habitava a consci�ncia,

Exalava o seu n�ctar preciso. 

 X

Encontrei nas margens dos barreiros

Sertanejas com ares sedutores,

Com olhares cobertos de fulgores

Dando passos suaves e maneiros.

Eu senti os seus h�litos faceiros

Envolver-me com m�gica leveza,

Eram encantos da pr�pria natureza

Seduzindo meus loucos devaneios,

De caboclas que tinham lindos seios

Com feiti�os de pl�cida beleza. 

XI  

Eu fiquei divagando sobre os mares

No sert�o do nordeste brasileiro;

Foi usando o meu barco-vaqueiro

Que eu passei por ins�litos lugares.

Visitei os distantes patamares

E abismos que t�m na imensid�o;

Vi fantasmas cru�is da solid�o

Como nuvens pesando sobre mim,

Que eu pensei que seria o meu fim

Na odiss�ia long�nqua do sert�o. 

XII  

Depois de andar por todos os recantos

Eu voltei pro meu canto pequenino,

Onde vivi os tempos de menino

Sobre as plumas de doces acalantos.

Retornei conduzindo n�alma encantos,

E tamb�m os pavores de outros mundos;

Vi a dor dos homens moribundos,

Vi princesas, serpentes, mil panteras,

Cantadores, vaqueiros, grandes feras,

Navegando nos mares mais profundos.

  

�rvore de Afetos

I

Um pequeno colibri

Voando na natureza,

Beijou com delicadeza

As flores do meu porvir,

No intimo senti fluir

O perfume do meu ser,

Fazendo a alma crescer

No jardim dos sentidos,

Onde os poemas floridos

Fazem o peito enternecer. 

II

Nos ramos do cora��o

Um bem-te-vi fez assento,

Pra cantar o sentimento

Da paisagem do Sert�o.

Eu senti uma como��o

Invadir-me por inteiro,

Fazendo o peito umbuzeiro

Lacrimejar dos seus galhos,

Pequenas gotas de orvalhos

Sobre meu rosto brejeiro.

III

Nas flores da alma suave

O vem-vem da esperan�a,

Mostra meu lado crian�a

Onde n�o existe entrave.

O meu peito sente a ave

Com seu canto matutino,

Onde meu jeito menino

Tem o l�rio da inoc�ncia,

Que exala da consci�ncia

Um perfume cristalino.

IV

No galho mais imponente

Do p� da minha exist�ncia,

Um sabi� com cad�ncia

Canta de forma contente.

O concriz leva a semente

No bico do amor fraterno,

Pra plantar no frio inverno

A �rvore da comunh�o,

Dando sombra ao cora��o

Num aconchego eterno.

Menino Passarinho

                                                                   

                                                         Poema musicado por Galv�o Filho

I

Sou menino passarinho

Com as asas da ilus�o

Que voa com o cora��o

Vivendo cada cada caminho.

O cantar � o meu ninho

Nos galhos da fantasia  

Onde o  verso melodia

Mostra suave compasso

Levando a voz ao espa�o

Num canto de poesia

    II

Como a fruta do repente

Com o bico do meu verso,

O improviso � o universo

Na copa do peito ardente.

O meu cantar t�o contente

Deixa a passarada em festa,

Que anima toda a floresta

Acordando os trovadores,

Onde p�ssaros cantadores

Cantam de forma modesta

  III

Vivo a voar nos meus sonhos

Entre os galhos da esperan�a,

Levando o meu ser crian�a

Que mostra l�rios risonhos.

Evito espinhos tristonhos;

Fa�o v�os sobre as campinas,

Vendo as �guas cristalinas,

Mostrando lindos orvalhos,

Que escorrem sobre os galhos

Dourando as folhas divinas

  IV

Eu beijo as flores do canto,

Pouso em copas de poemas,

Gorjeio mostrando emblemas

De um delicado acalanto.

Levo o riso, inv�s do pranto,

Minhas asas t�m carinho,

Boto amigos no meu ninho,

As plumas s�o aconchegos,

Que causam ternos sossegos

De um menino passarinho.

 

******

Contemplando o Oceano

I

Longe do sert�o, contemplando o oceano,

E olhando a beleza das �guas marinhas,

Fiquei encantado, nas horas tardinhas,

Assistindo o mar num bal� soberano.

O sol se inclinava com seu porte ufano

Dourando as espumas da cor de cambraia,

E as ondas aflitas vinham da antepraia,

Derramando l�grimas sobre as areias,

Vertidas dos olhos de lindas sereias

Para dar mil beijos no corpo da praia

II

O oceano irado, por causa da noite,

Batia com f�ria nos grandes rochedos,

Deixando minh�alma tremendo de medos

Por causa do forte e infind�vel a�oite.

A V�nus surgia no c�u pra o pernoite

Como uma princesa de puro desejo

Usando seu riso mandava-me um beijo

Atrav�s das belas estrelas cadentes,

Que desciam do c�u em curvas fulgentes

Pra banhar de luz o meu ser sertanejo.

III

O mar orgulhoso olhava pra mim,

E dizia que tinha grandes imp�rios,

Que ocultava nas �guas muitos mist�rios,

Os quais nenhum homem sabia seu fim.

Contou-me que no fundo tinha um jardim

De plantas ex�ticas, com outros olores,

Florestas imensas, de belos verdores,

Cavernas ocultas, lugares profundos,

Crust�ceos e peixes de exc�ntricos mundos,

Que causam encantos e muitos pavores.

IV

Vi o dia vir e fiquei contemplando,

Os segredos do gigantesco oceano;

Como sabe pouco do mar o humano,

Quando mais nele vai se aprofundando.

Eu senti minha alma no peito agitando

As eternas ondas que tem meu cantar;

Levantei-me, dei passos a caminhar,

Carregando nos ombros minha sacola,

Fazendo improvisos ao som da viola

Cantando um galope na beira do mar.

         

    Plantador de Sonhos

                                                              Poema musicado por Mirab� Dantas

I

Eu sou plantador de sonhos

Nos campos da fantasia,

Onde �s �guas da poesia

Germinam l�rios risonhos.

Arranco espinhos tristonhos

Com a enxada dos encantos;

Meus adubos s�o os cantos

Das aves do amor fraterno,

Pra vingar no ch�o materno

Um ro�ado de acalantos.

II

Sempre jogo sobre a terra

As sementes da verdade,

Pra o fruto da liberdade

Resistir a cruel guerra.

Quando escalo uma serra

Eu enterro os gr�os do riso,

Que fecunda um para�so

Em cada lugar que passo,

Onde o suor dum abra�o,

� meu inverno preciso.

III 

Quando est� seco o sert�o

No deserto dos sentidos;

Eu planto cantos floridos,

Onde o verso � a irriga��o.

Cada poema � um gr�o

Que o passarinho conduz

Pra plantar com amor e luz

O sonho dum novo mundo

Onde o bem seja fecundo

Que a todo mundo seduz.

IIII

Em cada cova que planto

A semente � a crian�a,

Pra brotar uma esperan�a

Sobre o rochedo do pranto.

Fa�o o sol jogar um manto

Com fulgores da bondade,

Onde a luz do peito invade

Os sens�veis cora��es,

Pra brotar as comunh�es,

Sobre o campo da amizade.

                       

Retirantes do Paje�

                                                             

        

                                                                  Poema Teatral/Oper�stico

O manto da noite faz sombras no sert�o,

Acompanhado dum terr�vel vento forte,

Que mostra o v�u da assustadora escurid�o

E solta gritos parecidos com o da morte.

Sob um casebre constru�do de argamassa,

Mulheres magras, meditando, fazem prece,

Com temor da morte que por a porta passa,

Trazendo o medo que o candeeiro estremece. 

 II

Vendo, na tela do sert�o, macabras cenas,

Velhas beatas rogam a Deus num s� lamento,

Como se fossem condenadas Madalenas,

Derramam prantos, se afogando no tormento.

Mesmo de longe, s�o ouvidos os louvores,

Cheios de rezas, choros, s�plica e ora��o,

Vendo o sol que j� secou o �Paje� das Flores� 

  E sugou toda a �gua que tinha no ch�o.

III  

Assim que � noite com o v�u desaparece

O �Rei do fogo� surge de forma inclemente.

E a escurid�o perde a roupagem e fenece,

Para nascer o dia com o seu clima quente.

De longe, o vento traz um s�rdido calor,

Dando impress�o que vem do fundo dum vulc�o,

Pra exalar sobre a terra um l�gubre ardor,

Num prenuncio que vai pegar fogo o Sert�o. 

 IV

O pajeusense ver murchar toda a esperan�a

Diante da cena que surge na alvorada,

E diz pra esposa que prepare a crian�a,

Pra come�ar, em breve a triste retirada.

Ergue o olhar, desfalecido e sem ter brilho,

Tendo, no corpo, pendurado um matul�o,

No qual s� tem como alimento para o filho,

A rapadura, a farinha e o feij�o.

V  

Da porta, ele olha pra lagoa calcinada,

Onde o cascalho se parece com uma brasa,

Fazendo crer que toda terra ressecada

Recebeu o forte calor que no inferno abrasa.

Sobre um curvado e ressequido umbuzeiro,

Um urubu, com paci�ncia aguarda a morte

Do pajeusense, que parece um marmeleiro,

Quando outrora, foi um vaqueiro bravo e forte.

VI  

Sentada no banco, padecendo de mis�ria,

A sua esposa se parece com um graveto,

Que de t�o magra, sente na fr�gil mat�ria,

O bra�o da morte, mostrando o traje preto.

O deca�do seio, sem ter leite e mole,

Com apar�ncia duma velha fruta murcha,

O qual, a magra filha l�nguida se bole,

E, tremendo de fome, com os l�bios puxa.

VII

Mas, ao inv�s de encontrar leite, � o sangue

Que aparece do magro seio como alento,

Pra alimentar o esqu�lido corpo langue,

Que sente na alma profund�ssimo tormento.

De cora��o seco e nos olhos a l�grima,

Sente um vazio no peito e na vista um v�u,

Fazendo o �ntimo sentir m�rbida l�stima,

E, dentro da boca, um amargoso fel.

VIII 

Os retirantes partem, dando adeus a terra,

Tendo a saudade como a sua companhia,

E olham pro vale, pra campina e pra serra,

V�em abutres que chegam pra vil profecia.

Uma crian�a fraca chora bem baixinho,

Levada pela m�e, agarrada ao vestido,

Cambaleando sobre o tortuoso caminho,

Entre as juremas, sobre o solo ressequido.

IX

Pela caatinga, n�o escutam a passarada,

S� os gemidos que ecoam no deserto,

Soprando sobre outra casa abandonada

Onde o fantasma da morte esteve perto.

Pelas estradas, xiquexiques, marmeleiros,

Mandacarus, coroa-de-frade e jurema

S�o parecidos com ignotos guerreiros,

Sobre a pel�cula dum estranho cinema.

X  

Se arrastando, passam pelo leito do rio,

A onde existiam correntezas, em outras eras,

Que, esbravejando, enchiam secos baixios,

Com a voraz valentia de mil panteras.

Agora, s� v�em esqu�lidos garranchos,

Cada um preso entre as brechas dum lajedo,

Tendo seus galhos estendidos como ganchos,

Parecendo homens condenados ao degredo.

XI  

A infind�vel prociss�o dos retirantes

De p�s descal�os, sobre os duros carrascais,

D� gritos de dores, de agruras e de ais;

Sofrendo quedas, andando cambaleantes.

Magras mulheres, pais famintos, tristes filhos,

Mostram a aus�ncia duma Na��o indiferente,

Que n�o enxerga os sertanejos maltrapilhos,

Onde o poder � um governo sempre ausente.

XII  

Sentindo a pele ressecada pelo o sol,

Os retirantes sofrem o peso do ver�o,

Onde a esperan�a � um cinzento arrebol

Anunciando uma vida de escurid�o.

Ontem, aurora de velozes cavaleiros,

Que, na caatinga, la�avam o valente touro.

Hoje, crep�sculo de condenados vaqueiros,

Perseguidos pela morte, com seu agouro.

XIII  

S� deixaram para tr�s decr�pitas casas,

Onde brincava, a crian�a enternecida,

Agora, s� sentem a companhia das asas

Dos urubus, como uma l�gubre guarida.

Em v�o, buscam encontrar algum aposento,

Mas s� encontram algumas �rvores nuas,

E, cabisbaixos num tristonho andar lento,

V�o mastigando amargosas ra�zes cruas.

XIV

De vez em quando, olham para o horizonte,

Dando mil passos, tortos e desconjuntados,

Mas s� enxergam a sequid�o atr�s do monte,

E, l� em baixo, os descampados ro�ados.

O pai olha o filho que est� magro de fome,

T�o desnutrido e fraco que o faz tremer,

E nem botou sequer um apelido ou nome

Porque sabe que em breve o filho ir� morrer.

XV  

Ao lado da m�e, uma esqu�lida menina

Como um graveto duma �rvore quando seca,

Que de t�o fraca o pequenino corpo afina,

Conduz nos bra�os uma risonha boneca.

Para o humilde e confession�rio brinquedo,

Fala baixinho, prometendo uma comida,

Na intimidade de um inocente segredo

Onde a esperan�a, no cora��o, � sentida.

XVI  

Sob o sol, que derrama o raio abrasador,

A prociss�o, sem rumo, de magros famintos,

� cruelmente trespassada pela dor,

Numa confusa estrada, com mil labirintos.

Os retirantes olham as casas sem portas,

Por onde a fome j� abriu cru�is caminhos,

E assistem um cen�rio de vacas mortas,

Ca�das sobre carrascais, entre os espinhos.

XVII

A companhia, que a pobre fam�lia tem,

� uma nuvem de famintos urubus,

Que, parecidos com fantasmas, v�m do al�m,

Pra rondarem os magros corpos quase nus.

Gritos, revoltas, choros, dores, maldi��es,

S�plicas, rezas, ladainhas e lamentos,

Se misturam com longos prantos e ora��es,

Numa trag�dia dantesca de mil tormentos.

XVIII  

Passando num vale, onde tinha uma fonte ,

A prociss�o, fantasmag�rica e sofrida,

Olha perdida, procurando um horizonte,

Onde, talvez, encontre algum tra�o de vida.

Mas s� enxerga uma cinzenta sequid�o

Sobre a plan�cie, sobre o vale e sobre a serra,

Onde o ardente sol causticante do ver�o

Deixa uma marca de trag�dia sobre a terra.

XIX  

Os retirantes, com sede, procuram �gua,

Mas encontram desertos e vazios po�os,

Que inunda os cora��es com um rio de m�goa,

Secando as almas de corpos que s� t�m ossos.

Com as m�os, buscam �gua no ch�o ressequido,

Ouvindo som, que sai da agourenta acau�,

Que, sobre um toco, solta um funesto gemido,

Profetizando que a busca por �gua � v�.

XX  

Sem casa, sem terra, sem p�tria ou na��o,

A multid�o de homem, mulher e menino,

Vai trope�ando nas pedras do seco ch�o,

Dando mil passos para um confuso destino.

A prociss�o dos famintos mostra um Pa�s

Que � t�o grande, mas � dividido pra poucos;

Enquanto um grupo de ricos canta feliz,

A multid�o de famintos chora como loucos.

     

 

O canto da Terra

I

O meu canto vem da terra

Arrancado do ch�o bruto

Delicado feito um fruto

Imponente como a serra.

Joga flores sobre a guerra

Com as p�talas do amor;

Faz nascer um esplendor

Nos campos da escurid�o

Onde a luz do cora��o

Toca na alma com fulgor.

II

Ele mostra uma menina

Na aurora de um sorriso;

Da flor � o n�ctar preciso

No jardim duma campina.

Tem o som d��gua divina

Escorrendo nos rochedos;

Possui l�ricos segredos

Das vozes dos sabi�s,

Que cantam os madrigais

Nas copas dos arvoredos

III

Tem o vigor da aroeira,

A sombra do umbuzeiro,

Resplandece o puro cheiro

De um p� de laranjeira.

Possui a can��o brejeira

Dos sapos numa vazante;

� um rouxinol cantante

Nas brechas dum telhado,

Com seu canto delicado

Numa manh� fulgurante.

IV

Ele � filho do repente

Da terra dos cantadores;

Tem a pureza das flores

Que brota duma semente.

Flutua sobre a corrente

Do Paje� majestoso;

Tem o som maravilhoso

Dum seresteiro concriz;

E mostra o Sert�o feliz

Durante o inverno bondoso

      

�guas do Paje�

                                  Poema �pico

I

  Como o sangue que borbulha pulsante

Das art�rias que saem dum cora��o;

Cada estrofe tremula em borbot�o

Do fugaz Paje� sempre vibrante.

Sua fonte jorra o verso brilhante

Sobre o leito que corre sentimento,

Onde as artes s�o o veio do alento

Transbordando de sonho e fantasia,

Inundando as ribeiras de poesia

  Onde a verve � sempre nascimento.

II

A viola que serve de instrumento

Solta o som da pequena correnteza,

Pra banhar os sentidos de beleza

Com afetos suaves como o vento.

Na vertente cristal do pensamento

Cada c�rrego que flui nos rochedos,

Leva versos cobertos de segredos.

Para um vale de l�rica exist�ncia,

Onde est� a sens�vel consci�ncia

Pra florir o viver com cantos ledos. 

 III

Sobre as margens, antigos arvoredos,

T�m nos galhos as flores do improviso;

Onde o canto demonstra um para�so

Na paisagem sutil dos versos quedos.

O repente que desce nos lajedos

Vem da fonte veloz da inspira��o,

Cada flor tem um verso de �Canc�o �,

Nas barrancas h� troncos dos �Batistas �,

Cada som tem a voz dos repentistas,

Numa enchente do verso e da can��o. 

 IV

Nos seus c�rregos se ouve a entona��o

Dos cantores cantando em serenatas,

Transbordando o lirismo em cascatas

Atrav�s de um sonoro viol�o.

O veloz Paje� da inspira��o

Quando desce conduz mil poemas,

Enfeitando com d�lcidos emblemas

As distintas paisagens dos sert�es,

Atingindo os sens�veis cora��es

Na enchente fugaz dos belos temas. 

 V

Sobre as margens se escutam nas juremas

Alguns versos passando em ventanias,

Tendo o eco de antigas cantorias,

Onde a m�trica e a rima s�o os lemas.

Nos regatos se encontram os poemas

Flutuando nas �guas do repente;

Quem passar por perto ainda sente

Os fantasmas poetas do passado,

Que fizeram do canto improvisado

Uma fonte que n�o seca a vertente. 

 VI

Os remansos que surgem da enchente

Trazem versos do vate �Bio Crisanto �;

Um poeta atingido pelo pranto

Com espinho no corpo e flor na mente.

Quando as �guas tremulam na corrente

S�o poemas do imortal Rogaciano ,

Que cantou contra o mundo desumano

Na defesa dos pobres e oprimidos,

Que nas margens soltavam os gemidos

Flagelados no mar do desengano.

VII

Sobre o leito transcorre o verso ufano

De um poeta que ainda � menino,

Atrav�s de um poema cristalino

Mais profundo e maior que o oceano.

Cada enchente que chega todo ano

Vem da fonte dum vate delirante,

Cuja idade j� mudou seu semblante

Mas a mente n�o perdeu os primores;

Onde os versos transbordam de amores

Enfeitando a esperan�a verdejante.

VIII

Sobre as ondas o verso triunfante

Representa o poeta Antonio Marinho

Seu repente foi quem abriu caminho

Na enchente do improviso fulgurante.

Cada veio que desce a todo instante

Traz as �guas dum vate mais recente

Aumentando o volume da corrente;

Onde as mil borboletas da poesia

Tomam banhos nas �guas da magia

Refrescando um sentido aurifulgente.

IX

Cada c�rrego de �gua transparente

Mostra o fundo da nobre inspira��o,

Parecendo que o rio tem cora��o

Onde o verso � seu sangue fluente.

Cada artista aumenta sua enchente

Quando verte do seu peito inspirado,

Uma fonte do canto improvisado,

Com sonoro borbulho cristalino

Onde o som reverbera como um hino

Numa orquestra de coro afinado. 

 X

Num rochedo se encontra enganchado

Os del�rios de Job , �Rei do lirismo �,

Que cantou no repente o romantismo

Sobre as �guas dum peito apaixonado.

Paje� � um rio onde o reinado

Foi erguido atrav�s da poesia;

No seu reino governa a fantasia,

No seu trono quem senta � o sentimento,

Sobre as �guas navegam como o vento

As can��es dos poetas todo o dia. 

 XI

� comum encontrar a melodia

Da can��o dos poetas cantadores,

Ou pain�is de fant�sticos pintores

Sabre as �guas descendo em harmonia.

Os orvalhos da aurora que irradia

T�m nos pingos got�culas de versos,

Que se somam aos poemas submersos

Aumentando a corrente dos encantos,

Transbordando de versos e de cantos

Enfeitando os mil c�rregos dispersos. 

 XII

Sobre as �guas fluem vates diversos,

As paisagens t�m telas dos pintores,

Na corrente tem vozes dos cantores,

Do profundo sobem s�bios imersos.

Nas cascatas brilham cantos emersos,

Estrondando nas rochas dum grot�o,

Revelando o lirismo do sert�o,

Atrav�s dos encantos da poesia

Para um lago de lenda e fantasia,

Que transcende do fundo um cora��o.

XIII

Eu s� pe�o pra nova gera��o

Para n�o poluir as �guas puras,

Atrav�s das ef�meras culturas

Com dejetos da massifica��o.

O voraz monstro da aliena��o

� a mancha do rio que � divino,

N�o respeita o poeta genu�no

Muito menos o brilho da hist�ria,

Onde o vate despeja da mem�ria

A corrente do verso cristalino.